A fé faz-nos herdeiros dos bens Deus e não da terra

[Leitura] 2 Pedro 1, 2-7; Mc 12, 1-12

[Meditação] Na homilia do IX domingo do tempo comum (ontem) declarei algo que também serve para hoje: se formos passar a pente fino o desempenho social da comunidade da Igreja (não só do bispo e dos párocos!), nem tudo é programa inspirado pelo Evangelho, mas ditado pelo programa social. Esta lente ajuda-nos, também, a meditar no Evangelho de hoje: a vinha é do Senhor e os vinhateiros são diferentes dos seus servos. Aqueles pensam no lucro pessoal, estes na parte do lucro pertencente ao seu Senhor. Este, inclusivamente, pensa na distribuição justa, mas aqueles somente em apoderar-se de tudo.

A caridade que a Igreja é chamada a atuar na verdade, por ser o amor de Deus traduzido por ações que revelem a Sua justiça, não se esgota meramente na parceria com a solidariedade social, como o amor não se esgota, nem se confunde com a tolerância. É, infelizmente, notável a facilidade com que, nas comunidades da Igreja, por vezes, existe a abertura a concessões sócio-políticas, minimizando o espaço para a missão da evangelização da cultura. Por outro lado, anda-se a “matar” padres com serviços que não lhes foram recomendados nas “promessas sacerdotais”, entendendo-se muitas vezes como funcionários pagos pelas paróquias, onde deverão (no pensamento de alguns) obedecer à vontade clericalizada dos leigos. Continua ou não a fazer sentido o evangelho hoje proclamado? Quem é o dono da vinha? No ocidente, carecem padres porque se deixou de contemplar a importância da sua origem sacra, mais como homem do social (como tantos outros) do que desde a Eucaristia que é chamado a presidir em nome de Jesus.

Sem fugir à obediência no que toca à Doutrina Social da Igreja, pelos trâmites do diálogo entre os dons hierárquicos e os dons carismáticos, os critérios da avaliação da participação no tríplice múnus do Bom Pastor não são ditados pela sociedade, ainda que esta deva ser escutada, mas pela Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja que compõem a Tradição.

Precisamos sempre de reconfigurar a pastoral da Igreja com a pedagogia do dono da vinha: com a torre da vigilância, a sebe da clareza e o lagar do discernimento em vista aos frutos que é preciso entregar ao dono. Como Pedro afirma: «Jesus, com o seu divino poder, concedeu-nos tudo o que é necessário à vida e à piedade (…)» entrando «na posse das maiores e mais preciosas promessas, para nos tornarmos participantes da natureza divina, livres da corrupção que a concupiscência gera no mundo». Vamos, então, como exorta este Apóstolo, « juntar à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a constância, à constância a piedade, à piedade o amor fraterno, ao amor fraterno a caridade». Que, pelas nossas mãos, esta não acabe nunca, na Verdade.

[Oração] Sal 90 (91)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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