Publicado em Lectio Humana-Divina

Lucrar com a morte é para todos, aceitando as oportunidades de viver Cristo

[Leitura] Is 55, 6-9; Filip 1, 20c-24. 27a; Mt 20, 1-16a

[Meditação] Frequentemente tardamos a entender a graça de Deus como um dom misericordioso infinito, uma vez que estamos muito habituados, por educação, a entendê-la como um prémio a conquistar com o nosso maior ou menor esforço, de maneira proporcional ao mesmo. Esta forma calculista de ver a graça de Deus leva-nos a preferir o “ter a graça de Deus” ao “estar na graça de Deus”. Mesmo aqui, cai-se frequente no erro de considerarmos que possa haver pessoas que estejam na graça de Deus, como se isso fosse um dado adquirido por mérito humano. Deus mandou o profeta lembrar-nos que os seus pensamentos e caminhos estão acima dos nossos.

No entanto, em Jesus, Deus veio pisar os nossos caminhos e revelar-nos os seus pensamentos. Na Sua Encarnação, a graça de Deus foi traduzida por palavras e gestos de amor concreto e não platónico ou só acessível aos intelectuais ou presunçosos espiritualistas. O Filho de Deus veio dizer-nos que Sua graça não é uma retribuição proporcional aos nossos atos, mas um dom misericordioso do Pai. A graça entrou em “défice” material e fez-se acessível a todos como “graça gratuita” (S. João da Cruz).

Se há algum “preço” a pagar, esse não tem nada a ver com mérito humano (que nada aumenta ou diminui à vontade de Deus), mas com o livre acolhimento do convite a entrar no dinamismo do amor infinito que, no tempo, se manifesta em diversas horas, espaços e modos. Prova disso é a experiência do Apóstolo que, desde o caminho de Damasco se deixou preencher por Cristo, de maneira que já não sabe o que é melhor: se lucrar com a morte para estar espiritualmente perto d’Ele, se viver a utilidade de O servir nos irmãos a partir da experiência da carne. Uma coisa é certa: de pouco lhe vale o zelo legalista que o levou a matar os amigos de Cristo, deixando-se iluminar pelo poder da fé, cujo combate travou não eloquentemente.

[Oração] Sal 144 (145)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu