Advento IV – Na encruzilhada do impossível, dar espaço à confiança em Deus

[Leitura] Is 7, 10-14; Rom 1, 1-7; Mt 1, 18-24

[Meditação] Certamente já nos questionámos como será isto de passarmos a uma nova etapa da história, não meramente liderada por rankings sociais, mas aberta à surpresa de Deus que acompanha o seu Povo pelos trilhos da (des)humanidade. «Não temas receber…» é o convite à confiança, quando, por vezes, a preocupação vai mais carregada de perguntas inúteis, como «Como será possível…?».

No seu pequenino argumento “Um mapa para pensar a religião”, o teólogo ALFREDO TEIXEIRA, cita um ensaio de Marc Augé (A guerra dos sonhos), para nos ajudar a refletir sobre o papel do sonho nas culturas e observa com ajuda do filósofo Oliver Abel que «a criatividade de uma cultura (…) descobre-se não tanto na sua capacidade de organizar a repetição, mas antes nesse desafio de se “enraizar para inventar”. O mais singular e arcaico na memória das culturas pode ser, diz ele, «o lugar em que se descobre o mais inédito e ressoa o mais universal». Assim, uma religião ou uma vida de fé é feita de dois pontos fortes − a conservação e a inovação −, nunca se reduzindo a um só deles. Acaz, ignorando os sinais de Deus, queria conservar o seu reino à sua imagem. José, ainda que justo, não desvendava por si só a ajuda que Maria precisava para levar aquela maternidade a cabo.

Muitas vezes confundimos os sonhos com os desejos de superar expetativas. Estou convencido que o sono de José é aquela passividade espiritual requerida para que a Palavra de Deus seja acolhida com a sua força capaz de motivar a uma nova forma de lidar com a realidade, por vezes, dura da vida. O Anjo de Deus ordenou-lhe algo muito parecido com aquilo que o profeta Isaías disse a Acaz. Aliás, ambos eram da casa de David. A mesma Palavra estava diante deles. No entanto, reagiram de maneira diferente. E nós? A mesma Palavra está diante dos nossos ouvidos: «Não temas receber…».

Esta semana é tempo último para se afirmar a confiança no poder de Deus, calando o orgulho das capacidades pessoais, sempre limitadas em acolher a novidade surpreendente de Deus, para se conseguir aquele encontro que, na Liturgia, é memória celebrada e, na vida, é profecia realizada.

[Oração] Sal 23 (24)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo