Neste Ano da Misericórdia, Jericó foi em Cracóvia!

[Leitura] Sab 11, 22 – 12, 2; 2 Tes 1, 11 – 2, 2; Lc 19, 1-10

[Meditação] Doi à três meses, mais precisamente no dia 31 de julho, que o Papa Francisco atravessou o Campo da Misericórdia, antes de se dirigir para a sua Jerusalém terrestre que é Roma. No relato do evangélico de hoje, a descrição do que se passou em Jericó fez-me relembrar a Jornada Mundial de Juventude com os jovens do mundo inteiro. E a proclamação do evangelho não deixa mentir: era o mesmo! Foi este o fundo temático que o Papa escolheu para falar aos jovens, cada um suspenso no seu “sicómoro”, não hoje entendido como árvore, mas o seu modo de existir, empunhando, na maioria, o seu smartphone e os seus sonhos. E aquele campo, era mesmo, geograficamente, parecido com Jericó: um fundo pantanoso, diferente de qualquer monte seco.

Na homilia da Missa de envio dos jovens, o Papa refere que o encontro de Jesus com Zaqueu não aconteceu segundo a gramática habitual da saudação ou pregação a que estamos habituados na Igreja. Jesus atrevesse a atravessar a cidade, desejando aproximar-Se da vida de cada um, percorrer o nosso caminho até ao fim, para que a sua vida e a nossa se encontrem verdadeiramente. Para que este encontro acontecesse, o Papa fala dos três obstáculos que Zaqueu teve de enfrentar:

1º — A baixa estatura. Zaqueu era pequeno, segundo parece. Lucas, no entanto, parece quer metaforizar neste relato a baixa de dignidade de quem tem a sua “casa” desarrumada, por causa de uma vida marginal. Para o encontro com Jesus, é necessário assumi-la, descendo dos “pedestais” da aparência por onde se esconde a nossa vida real.

2º — A vergonha paralisadora. Quantos respeitos humanos ao respondermos “tudo!” à frequente pergunta “está tudo bem?”. Como é difícil unir o conhecimento teórico que temos da omnipotência de Deus com a experiência prática da sua misericórida! Deixarmo-nos encontrar por Jesus implica procurar reconhecê-l’O, apesar do “fosso”, por vezes, intransponível causado pela silenciosa timidez.

3º — A multidão murmuradora. Quantas assembleias e procissões cheias de tradição simbólica sem Transmissão da fé! Quantas orações não serão um balbuciar, também ele tímido, para garantir a salvação na eminência de um temido fim do mundo? Em vez de uma oração ativadora de processos hermenêuticos que envie os cristãos em missão para aquelas vizinhanças onde se procura Deus fora dos ritos tradicionais.

O teólogo checo Tomás Halík, no seu livro “Paciência com Deus, a oportunidade de um encontro» (Paulinas, 2013) apresenta Zaqueu como um símbolo dos que procuram Deus, daqueles que ficam a espreitar pela varanda enquanto a procissão dos crentes passa na rua. Para este sacerdote que teve de exercer o seu ministério 11 anos na clandestinidade, não existe a diferença entre crentes e não crentes, mas entre os que habitam e os que procuram a fé. Com a sua ajuda, concluímos que Jesus não entra na “casa” da nossa vida por sermos santos e irrepreensíveis. A entrada d’Ele é que nos faz santos e irrepreensíveis! Como Jesus a Zaqueu, também o Papa Francisco exortou aos jovens, naquela “Jericó” atual, que descessem dos sofás cómodos e calçassem as sapatilhas, para, também, eles atravessarem a história dos seus contemporâneos, levando aos seus corações o olhar terno de Jesus que salva.

[Oração] Sal 144 (145)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo