Não ter medo é escolher bem o que se deve temer

[Leitura] Ef 1, 11-14; Lc 12, 1-7

[Meditação] No episódio de hoje, que se segue ao debate com os escribas e fariseus, entre Jesus e a multidão estão os discípulos. Imagino os “atropelos” da multidão como aquele espírito de competitividade desleal alimentado pelo “fermento” dos fariseus. Vai e não vai, todos querem ouvir Aquele Mestre surpreendente que calou os doutores da Lei, mas se houver um destes que garanta a algum uma melhor carreira, este será capaz de O acusar de alguma novidade mais atrevida que O possa levar a tribunal. Este ar de acusa-cristos será a máscara com que se escondem as más intenções. E o mau fermento sai levedado…

Infelizmente, já ouvi falar e presenciei deste tipo de “atropelos” dentro dos meandros da Igreja, onde se repete a confronto entre multidões confundidas e discípulos mais atentos. A Palavra da verdade que constitui o Evangelho da salvação está diante de todos como oferta da revelação de Deus que, segundo os desígnios do Seu Amor infinito, quer salvar a todos. Esta salvação dependerá, sobretudo, da obediência que Lhe for dedicada. Será a Palavra a luz que porá tudo o que está escondido a claro no tempo devido. E a boa semente morre para dar fruto…

Uma vez que as pessoas “valem mais que os passarinhos”, seja lá estes de que espécie for, então a diversidade de pessoas e, nelas, a diferença de pensamento e de ação, não deve ser temida, nem desprezada. No seu primeiro discurso como Secretário-geral da ONU, António Guterres defende que “a diversidade pode juntar-nos e não separar-nos”, ao propor a diplomacia pela paz e pelo diálogo. A meu humilde aviso, para uma “diplomacia” na perspetiva da nova evangelização, não deveríamos, tout court, utilizar tanto aquela expressão de uma militância proselitista como “ser fermento na massa”, onde facilmente se escondem “salpicos farisaicos”, mas, mais, a expressão “semente que morre para dar vida”, hoje mais testemunhada por cristãos como Asia Bibi que, surpreendentemente, foi objeto de uma boa diplomacia (ainda que do tamanho de uma semente) pela assinatura conjunta de 60 deputados portugueses em favor da sua libertação na Embaixada Paquistanesa em Portugal. Numa Europa sem voz e dominada pelo medo, como proferiu o Secretário de Estado do Vaticano nas recentes celebrações de Fátima, são precisas muitas “vozes” unânimes como estas para que se possa desenvolver globalmente a defesa pela dignidade humana, como afirma, também, Guterres a partir da ONU.

Foram sempre os pães ázimos a ser preferidos e usados pela Igreja, ao longo dos tempos, para celebrar a Comunhão, como antídoto contra aquele mau fermento que destrói e mata a dignidade e a vida humana (cf. 1 Cor 5, 6-7). É Deus, origem de todos os bens, que somos chamados a “temer” (= “obedecer”), para que vivamos sem medo…

[Oração] Sal 32 (33)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo