Um Itinerário da Mente para Deus que não esqueça o Corpo!

[Leitura] Is 38, 1-6. 21-22. 7-8; Mt 12, 1-8

[Meditação] Assistimos há poucos dias ao susto que não passou de um mal entendido, apesar dos grupos de pressão que o querem assumir como bem pastoral: a sugestão de celebrar Missa “ad Orientem” no próximo Advento. Sem estar a querer investigar o que terá estado por detrás desta fugaz notícia, proponho, no âmbito da lectio humano-divina, expressar a intuição de que celebrar de costas para o povo, voltando a tirar o altar do “coração” da assembleia, e “colando-o” a um retábulo, será dizer «quero o sacrifício e não a misericórdia», contrariamente ao que Jesus manifestou diante dos fariseus em defesa dos seus discípulos. Vou dizê-lo sem rodeios: não aproveitar (como está previsto) o altar no centro do povo, colocando nele diante dos irmãos a própria vida e as próprias misérias, representando esse amor todo-poderoso que está para servir e não para ser servido é um “placebo litúrgico” que tende a trespassar para dentro da Igreja perturbações psicológicas pessoais ou coletivas. Neste retrocesso, esquece-se que, entre o altar e o povo, portanto no centro, passa a estar a figura do sacerdote. Esta autorreferencialidade representa o distúrbio de um narcisismo não resolvido, imposto de maneira camuflada em tal tendência. Menos mal que o Vaticano agiu rápido!

Talvez haja problemas de memória, não só no que toca aos documentos do Concílio Vaticano II (e não só o que se refere à Liturgia!), de quem não é capaz de recordar mais atrás que Trento (e mesmo sem saber ler este tão nobre Concílio), nomeadamente no séc. XIII, em que São Boaventura viveu. Se estudarmos um pouquito que seja, vamos aprender com ele que não podemos ir a Deus diretamente, mas através de um “itinerário”, apesar de que Ele tem o poder de vir diretamente até nós (para Ele não há limites de tempo ou de espaço, como para nós). No tempo daquele frade-menor, os itinerários geográficos eram muito importantes (na atitude humano existencial), como hoje, estão a voltar a ser como instrumento de saída dessa autorreferencialidade “assassina”, na peregrinação do ser humano sobre a terra. Este nobre filósofo teve a feliz ideia de elevar esse termo à categoria de “itinerário mental” (na atitude filosófica) que, hoje, se traduz pela expressão itinerário espiritual (na atitude espiritual).

Ora, na sua obra intitulada o “Itinerário da mente para Deus”, aquele autor sugere que os que “habitamos” e os que “buscam” (como referencia Tomás Halík) partamos da evidência de que Deus existe, iniciando por comprová-lo a partir da existência das coisas criadas, para, depois, sermos capaz de nos relacionarmos bem com ele dentro e a partir da alma. Hoje, algumas tendências de “espiritualidade” querem levar as pessoas até Deus desconsiderando as coisas da natureza, acabando por não preencher a alma humana e manipulando-a com preceitos farisaicos. O Evangelho de hoje sugere-nos que o culto verdadeiro deve ser libertador. Por isso, a preferência de Jesus vai para a misericórdia e não para o sacrifício. É curioso que na profecia de Isaías os elementos da natureza sirvam para comprovar a resposta do Deus de misericórdia diante do choro de Acaz. Desconsiderando isto, diante dos pobres e miseráveis, corremos o risco de tergiversar a religião com subterfúgios de quem se quer servir a si próprio e não ao bem dos outros.

[Oração] Sal Is 38, 10-11

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo