O Pai basta e é Jesus que no-l’O dá a conhecer no Amor

[Leitura] 1 Cor 15, 1-8; Jo 14, 6-14; Tomás Halík (entrevista)

[Meditação] Hoje, a Liturgia da Palavra da Festa dos Apóstolos Filipe e Tiago coloca diante dos nossos olhos uma equação que ajuda a endireitar o nosso desejo de Deus, tantas vezes maculado pela lógica desenfreada e limitante do mundo. Essa equação poderia ser formulada em paralelo com as virtudes teologais:

Conhecer Jesus pela Palavra (com a Fé) ∪ Crer no Pai conforme Ele Se apresenta em Jesus (pela Esperança) ∩ Fazer a Sua Vontade pelas obras do Espírito (na Caridade).

Este “trítono” coincide com os sinónimos “conhecer”, “acreditar” e “ver” com os quais João descreve o essencial da vida cristã e que se sintetizam na autodefinição de Jesus: «Caminho, Verdade e Vida». Por isso, a satisfação dos desejos mais profundos não pode acontecer senão pelas mediações que Deus usa. A experiência direta de Deus (vê-l’O face-a-face) significaria estar morto e estar na outra vida. A união com o Pai a partir de Jesus no Espírito Santo permite-nos ter sempre desejo de Deus sem o saciarmos completamente nesta vida, com o risco de fazermos com Ele o que fazemos com as criaturas: possuir repetidamente sem nunca no sentirmos saciados definitivamente. Pela Fé em Jesus, passa-se algo distinto: desejando sempre para permanecer sempre n’Aquele que nos satisfará definitivamente quando Lhe aprouver.

O desejo de ver o Pai por parte dos Apóstolos (concretamente na pessoa de Filipe), mantido serenamente em modo contínuo fez com que a fé cristã se expandisse além fronteiras (suspeita-se que Tiago terá chegado a Compostela!). Talvez o desejo permanente de Deus, e não a satisfação imediata de todas as graças, seja a força da transmissão fiel do Evangelho que Jesus mandou anunciar até aos confins do mundo. Para, como os Apóstolos, conseguirmos ir mais longe no projeto de Deus, precisamos, na mesma escola da relação com Jesus,  de ter a coragem de delimitar os limiares do desejo humano, confinando o coração ao que nos diz no Evangelho. Desta forma, a eficácia apostólica do anúncio do Evangelho deriva da mesma eficácia do acolhimento dos valores que ele propõe no interior de cada crente.

Tomás Halík, com o seu pensamento de fronteira, ajuda-nos a perceber que a fé não pecisa de responder a todas as perguntas, mas é necessária para nos manter ligados ao mistério que se vai apresentando em cada fragmento das nossas vidas.

[Oração] Sal 18 A (19)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo