A grande ressurreição que está além e aquém do pequeno “mas”

[Leitura] Jer 18, 18-20; Mt 20, 17-28; D. BONHOEFFER, Sequela

[Meditação] Paira uma grande indignação, por vezes, silenciosa, embora não menos intensa no sofrimento que causa, na desigualdade humana que se regista na sociedade, incluindo a que habita nos nossos corredores eclesiais. Esta desigualdade é uma das formas de injustiça escondida pela indiferença e costuma protocolar-se, presunçosamente, com capa magistral. Procura-se, sem olhar aos meios, garantir a vida eterna, como se esta tivesse os mesmos aposentos e mobília terrena, cujo nível não desdiga da ambição de quem os usa.

A ressurreição não é um “anexo” no discurso de Jesus, como estivesse na sala ao lado bem fechada até à morte e disponível só para quem se portar aparentemente bem. É um assunto vital, já aqui na experiência terrena! Quando adverte os seus discípulos de que não devem imitar os chefes das nações (que costumam habitar em aposentos bem caros), é para lhes sugerir que o que serve, “perdendo” a vida terrena na humildade já “goza” e testemunha a possibilidade da vida eterna. A morte, nesta perspetiva, seria como que uma “trasladação” de dimensão, apesar do “cálice” que é preciso “beber” como preço que essa vida comporta. No entanto, não podemos ignorar, como certas correntes espirituais (e de piedade) defendem, que a Ressurreição já é um facto acontecido e o Ressuscitado habita todo o universo.

Temo a socialização da Igreja, embora menos do que a esperança alegre em que os seus filhos tenham a consciência de que não são do mundo, mas habitam dele para darem testemunho da vida nova do Ressuscitado que já possuem pelo Batismo. Há coisas que os fiéis não deveriam pedir, nem dentro, nem fora da Liturgia, para tentar garantir o que só Deus pode dar. Peçamos a Deus que nos livre de conspirações (internas e externas), para sermos capazes de ser pontes entre o Ressuscitado e os que ainda caminhamos errantes nesta vida terrena. Que esta partilha nos inspire para uma feliz “sequela Christi” (seguimento de Cristo):

«A graça a bom (baixo) preço é o inimigo mortal da nossa Igreja. Nós hoje lutamos pela graça a caro preço. […] Graça a bom preço é anúncio do perdão sem arrependimento, é batismo sem disciplina de comunidade, é Santa Ceia sem confissão dos pecados, é absolvição sem confissão pessoal. Graça a bom preço é graça sem que se siga Cristo, graça sem cruz, graça sem o Cristo vivo, incarnado. Graça a caro preço é o tesouro escondido no campo, por amor do qual o homem vai e vende tudo aquilo que tem, com alegria; a pérola preciosa, por cuja aquisição o comerciante dá todos os seus bens; o Senhorio de Cristo, pelo qual o homem tira o olho que o escandaliza; o chamamento de Jesus Cristo que impulsiona o discípulo a deixar as suas redes e a segui-Lo. Graça a caro preço é o Evangelho que se deve procurar de novo, o dom que se deve de novo pedir, a porta à qual se deve sempre de novo bater. É a caro preço porque nos chama a seguir, é graça, porque chama a seguir Jesus Cristo; é a caro preço, porque o homem a conquista pelo preço da própria vida, é graça porque precisamente deste modo Lhe doa a vida; é cara porque condena o pecado, é graça porque justifica o pecador. A graça é a caro preço sobretudo porque custou muito a Deus; a Deus custou a vida do próprio Filho muito amado […]. É sobretudo graça, porque Deus não considerou demasiado caro o seu Filho para resgatar a nossa vida, mas entregou-O por nós. Graça cara é a incarnação de Deus.»

[D. BONHOEFFER, Sequela, Brescia 1975, 21-23.]

[Oração] Sal 30 (31)

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo