Publicado em Lectio Humana-Divina

A nossa consagração à Palavra seja ”façonnable”

[Leitura] 1 Jo 2, 3-11; Ev   Lc 2, 22-35

[Meditação] O Evangelho de hoje sugere-nos que façamos um “rewind” na história da vida de Jesus em relação à cena que contemplámos na Festa da Sagrada Família de Nazaré, a da perda de encontro aos doze anos, onde Jesus começou a manifestar os primeiros sinais de ser “sinal de contradição” em relação a uma cultura anti ou pré-vocacional do seu tempo, falando no sentido especificamente cristão da vocação diacernida a partir da relação entre o Filho e o Pai. Na Apresentação do Menino Jesus no Templo, para cumprir as prescrições da Lei, José e Maria levaram duas rolas para sacrificar e o seu Primogénito para consagrar a Deus. Não foi ao contrário… o Menino a sacrificar (a uma lei) e as rolas para consagrar… Estes sagrados esposos fizeram a apresentação bem feita!

A consagração do velho Simeão também não foi em vão, ao acolher nos seus braços, enfim, a Luz que faltava para completar tudo o que tinha feito no cumprimento da Lei. Este episódio, nos primórdios do Novo Testamento, prova-nos que a vocação cristã não pode ser um mero somar de sacrifícios feitos à parte da Luz que é a Palavra de Deus, com o risco de continuarmos perdidos nas trevas de uma vida vivida sem sentido ou sem meta. O jogo que João usa na sua primeira carta entre as expressões “mandamento antigo” e “mandamento novo” serve para compreendermos que um e outro são o mesmo, significando que é ”antigo” porque, como escreveu, também, no Prólogo do quarto Evangelho é o Verbo que, no dizer o Batista, «existia antes» e que recebemos desde o princípio, mas que não pode ser acolhido como letra morta. É “novo” porque é “o que é verdadeiro n’Ele e em vós”, ou seja, letra acesa com a “cera” do nosso ser. Como escutámos no mesmo Prólogo, no dia de Natal, «O Verbo era a Luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem» (cf. Jo 1, 1-18). Toda a vida de Jesus foi, pois, pela Boa Nova, uma Luz a provocar os espíritos mais duros à docilidade ao amor de Deus.

No dicionário francês, define-se como “façonnable” aquele material maleável que pode ser modelado, modificado de diferentes maneiras muito facilmente sem ser quebrado. Pois é assim que a nossa consagração ao Senhor também pode ser, no cumprimento do Mandamento Novo que é a Sua Palavra acesa em nós, para que Se manifeste no mundo a ser, também, sinal de contradição, no confronto com as trevas. Se entendemos a nossa consagração batismal meramente como sacrifício ou dever de tradição e não uma entrega a partir de dentro, pode acontecer que um dia percamos o sentido e “quebremos”. E isto não será bom, nem para nós próprios, nem para os outros. Embora a consagração batismal e vocacional implique sacrifícios temporais, a modelagem diária da nossa vida pelo acolhimento e vivência da Palavra de Deus vai transferindo a nossa entrega do mero cumprimento do dever ao viver segundo a Luz da Verdade. Uma vez que Jesus prefere a misericórdia ao sacrifício (Mt 9, 13), façamos da nossa vida uma entrega aos outros pela dimensão da compaixão, como nos aconselha João, limpando os nossos olhos da cegueira do ódio.

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Autor:

Padre da Diocese de Viseu