Publicado em Lectio Humana-Divina

Para morrer por Cristo basta ser simples

[Leitura] 1 Jo 1, 5 – 2, 2; Sl 123; Mt 2, 13-18

[Meditação] Não sabemos imaginar o que terá sofrido Jesus (em criança, adolescente, jovem e adulto) ao saber que muitos dos da sua geração com quem poderia ter convivido nem sequer conheceu, porque morreram por Sua vez. Há gerações assim, marcadas por um certo estigma de solidão que, por causas históricas diferentes, influenciam o viver de muitos. Talvez, também, este facto tenha levado a face humana de Jesus a ter uma ligação mais afetiva com as crianças do seu tempo (”delas é o Reino dos céus”), querendo prevenir o que soube ter acontecido no passado no que toca às gerações futuras. Ter uma capacidade especial de luta pela verdadeira justiça é algo que se aprende, não raramente, com a prática sofrida da perda de muitos.

Os Santos Inocentes − temos de o dizer sem pietismos estruturalmente defensivos − podem ser entendidos como os “padroeiros” de todos aqueles que morrem por Jesus Cristo ou pela Verdade sem o saberem, estando ou não estruturalmente ligados a uma instituição religiosa, onde, por vezes, os “donos” desta pensam mais na autorreferencialidade do poder do que na sua possível Fonte. Por isso, podemos falar de mártires em todas as idades e em todas as religiões ou confissões de fé. São aqueles que estão na hora errada e no local errado, a tentar ser felizes, mas no meio da luta entre o falso poder dos homens e o Poder de Deus, a Fonte de tal felicidade. E este poder está assente na Palavra do Verbo, a nossa única defesa na hora da tribulação, palavra que realiza o projeto de Deus, ainda que não reconhecido pelos homens.

«Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» (Mt 11, 25-27)

Os que dizemos conhecer a Cristo, em que ficamos? Temos vindo a contemplar com tamanha tristeza com os tumultos que deixam transparecer o que se passa, por exemplo, dentro no Vaticano. E basta ficarmos pelas “guerras” internas da Igreja para percebermos que há “herodes” em todo o lado, mesmo fora, onde quer que haja buscas desregradas de poder. Quase sempre sofrem ou morrem os simples, mesmo que a morte não seja física. Quantas gerações de jovens a correr por carreirismos civis e eclesiásticas que já “morreram” ou que, sem o saber, já têm o seu futuro ameaçado, uma vez “detidos” pela fachada que esconde a mentira e as trevas de que João fala na sua primeira carta. Sim, o Senhor está com os simples que têm a sua vida ameaçada nas mãos dos mentirosos, pois, como diz o Salmo, «se o Senhor não estivesse connosco, os homens que se levantaram contra nós ter-nos-iam devorado vivos, no furor da sua ira». Na verdade, há que não ter medo de quem mata o corpo… (cf. Mt 10, 28).

Nas verdadeiras lutas deste mundo, com o que se debate noticiosamente, por vezes, damos a impressão de que a solução está só nas mentes inteligentes e que a pessoa dos pobres e ignorantes de nada valem. Estamos redondamente enganados! Deus pode servir-Se de quem quiser para pôr em prática o seu poderoso projeto da Salvação que é para todos. O Papa Francisco tem razão: a salvação da instituição Igreja pode estar nas suas periferias! Que neste dia a nossa oração se volte para os que sofrem no silêncio e na ignorância, sem saberem que são “ofertório” do Amor infinito e misterioso de Deus para todos. Na Eucaristia, o pão e o vinho oferecidos no altar vão ser Corpo e Sangue de Jesus e também não o sabem!

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Autor:

Padre da Diocese de Viseu