Publicado em Lectio Humana-Divina

Martírio: o testemunho que deixa marcas profundas

[Leitura] Act 6, 8-10; 7, 54-59; Mt 10, 17-22

[Meditação] Comummente, pensamos que o martírio é uma consequência, mas também é uma causa: no sentido de que dar testemunho de Jesus Cristo também causa reações que podem levar ao sofrimento e, até, à própria morte. Um mártir é aquele que com a sua vida dá testemunho do domínio de Deus contra um poder que nega este direito divino. Os primeiros mártires cristãos mostram-nos que a certeza do primado incondicional do Reino de Deus desencontrou-se com as pretensões divinas dos imperadores. Nas comunidades cristãs, ainda jovens e pequenas, estas execuções cruéis serviram para imprimir a fé indiscutível no domínio de  Deus de maneira indelével no coração do império romano. Não é estranho, por isso, que a espiritualidade dos mártires apareça no próprio coração da espiritualidade cristã, a começar pela importância que lhe é dada em Estêvão no dia a seguir ao Nascimento de Jesus Cristo.

Cá para nós: de certa maneira, não foi mal que Saulo tenha presenciado o martírio de Estêvão, a exercer o papel de uma cumplicidade “passiva”. O que viu e ouviu, embora não o pudesse nesse momento demonstrar, deve-o ter marcado profundamente, influenciando o modo como acolheu a sua conversão e o seu ímpeto apostólico. Digo isto porque, hoje em dia, também é necessário perguntarmos o que acontece com as marcas que os martírios atuais (na Síria, no resto terceiro mundo, nos que se dedicam seriamente por diversas causas, etc.) deixam debaixo da nossa pele, apesar dos “cosméticos” e dos óculos escuros que colocamos para não deixarmos ir abaixo a nossa resiliência.

Nunca será demais recordar testemunhos da história antiga e de pessoas atuais que parecem transbordar de confiança no poder de Deus, apesar da fragilidade humana. Quem não conhece pessoas dedicadas a causas de uma forma que abala os atuais falsos poderes da sociedade, de forma a correrem o risco de serem ameaçadas por essas formas de poder mundano? Se não ficamos sensibilizados com estes testemunhos a curto prazo, é porque há qualquer coisa que aconteceu de mal no nosso nascimento para a fé, no Batismo. O martírio (seja ele de sangue ou “branco”, do compromisso quotidiano) é uma forma de manifestar a nossa “saúde” espiritual que revela a nossa conformidade a Cristo e uma escolha  incondicionada por Deus. Não existe modelo espiritual mais perfeito que o mártir, porque se assemelha à forma de entrega de Jesus Cristo, entre o testemunho de confiança no poder de Deus, a reação  ameaçadora dos inimigos e o perdão aos mesmos.

Não é por menos que o martírio é, também, apresentado como causa do (re)nascimento de verdadeiras comunidades cristãs.

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Autor:

Padre da Diocese de Viseu