Publicado em Lectio Humana-Divina

A Família, escola elementar da misericórdia

[Leitura] Sir 3, 3-7. 14-17a (gr. 2-6. 12-14); Col 3, 12-21; ou 1 Sam 1, 20-22. 24-28; 1 Jo 3, 1-2. 21-24; Lc 2, 41-52

[Meditação] Dentro da oitava do Natal, a Igreja convida-nos a celebrar a Festa da Sagrada Família de Nazaré para nos ajudar a concretizar o nascimento de Jesus no âmbito elementar do papel que a família humana tem no mistério da salvação, uma vez que a defesa da fundamental dignidade da vida humana não pode ser dissociada da promoção da família. Assim, a liturgia deste dia apresenta-nos a Família de Nazaré como referência, com as virtudes familiares e o espírito de caridade que a animava, como algo a imitar para que cada a família viva o seu desígnio.

As leituras deste dia sugerem-nos que a Família pode ser uma escola elementar (fundamental) da misericórdia, em dois sentidos: corporal-afetivo e espiritual-vocacional. Vejamos:

a) Corporal-afetivo. A família é como que o primeiro espaço de acolhimento de cada ser humano, essencial para o seu crescimento físico e amadurecimento afetivo que acontece por estádios, presenças e ausências que ajudam a equilibrar cada pessoa sobre as suas próprias pernas, lugar onde se aprende a descobrir a relação e a autonomia (inter)dependente. Há, no dar e receber da família, como que a presença daquilo que chamamos a “economia da salvação”, com os valores (não meramente materiais) da caridade, do perdão e da gratidão, espaço de sanação física, psíco-espiritual e moral (cf. Sir e Col). O Papa Francisco já nos recordou as palavras essenciais para a paz na família: “com licença”, “obrigado” e “desculpa”. Elas encontram-se sintetizadas nas leituras deste dia, valores que exigem o cuidado da educação na família. Sem a aprendizagem da prática desta declinação fundamental de valores naturais/relacionais, não se pode crescer em sabedoria, em estatura e em graça, como Jesus na Família de Nazaré, onde permaneceu “submisso” até à Sua vida pública. No entanto, deu mais um passo importante, para fora da intimidade da sua família adotiva, entrando em relação com as tradições da família judaica mais alargada.

b) Espiritual-vocacional. Para imitar a Família de Nazaré, a família humana não pode ser “centrípeta”, ou seja, isolada e a puxar tudo para dentro, para o cordão umbilical, “mas centrífuga”, a impelir saudavelmente para fora de si, como normalmente é de esperar. Para isso, ela precisa de estar relacionada com uma soma de famílias mais alargada, a da comunidade crente, onde a profecia, a celebração e o cuidado para com os problemas sociais comuns aparecem como uma, também, sábia escola e tarefa comum (a comunidade alargada, paróquia, etc. seria como que a “universidade”). É na abertura a esta grande família que se aprende o sentido de viver a própria vocação. Há, no entanto, hoje, muitos pais e mães que pensam que a felicidade dos filhos está num mero imitar o que fizeram ou fazem eles mesmos. Erro que se paga caro mais tarde, por vezes, con consequências irremediáveis! A cena do Evangelho de hoje (Lc) mostra-nos que o desígnio da verdadeira felicidade de cada pessoa está no templo ou no coração do Pai. Se a família humana não educa a partir d’Ele e para Ele, não está a cumprir a sua verdadeira missão, pois a raiz da fundamental e igual dignidade de todos os filhos está n’Ele. E é pela confusão na compreensão desta original Fonte que entra, infelizmente, muita miséria na vida de certas pessoas que não conseguem encontrar o seu sentido de viver por causa da superproteção dos pais. A família é o lugar do desmame dos filhos; uma vez acontecido este desmame, cada família é chamada, como Ana, mãe de Samuel, a consagrar ao Senhor os seus filhos (cf. 1 Sam). Isso pode acontecer, hoje, na proposta da Igreja, com o Batismo e o caminho catecumenal que deve decorrer dele.

Concluindo, podemos dizer que à luz da Família de Nazaré cada família pode ser vista como um “berço” da dignidade humana, apontando para a comunidade como a “casa” maior  em que cada pessoa pode descobrir e viver a sua vocação. As duas dimensões apontadas coincidem com a tradicional e interdependente relação entre as obras de misericórdia corporais e espirituais.

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Autor:

Padre da Diocese de Viseu