A história humana e os hiatos que abrem a porta ao Mistério

[Leitura] Jer 23, 5-8; Mt 1, 18-25

[Meditação] A genealogia ontem proclamada prova que Jesus teve uma ascendência humana, onde figuras como Abraão, David, José e Maria são suficientes para afirmarmos que Ele é verdadeiramente Homem. Mas não basta para uma fé completa em Jesus, nome que já deixa entrever a missão d’Aquele “que salva”. É preciso acreditar que Ele é, também, verdadeiramente Deus, o Cristo, também por causa da “descendência” da fé, que nos faz participar na Sua filiação divina.

Há pessoas para quem a rotina (dos afazeres, dos horários, dos protocolos, das convenções, dos respeitos humanos, etc.) é um fator que ajuda a não nos perdermos em divagações ou dispersões inúteis e perigosas. No entanto, a Palavra de Deus sugere-nos que também nos pode levar a cair na prisão das falsas seguranças humanas. O ser humano não pode viver a pensar somente na sua ascendência humana e histórica; senão tão teria, sequer, a ousadia de pensar na sua descendência, seja humana, seja vocacional e espiritual. É por isso, talvez, que haja homens e mulheres a quem custa pensar em exercer algum tipo de fecundidade. Na verdade, para deixar um registo humano irrepetível não basta estar vivo (de que serve uma impressão digital única, se não for para imprimir a sua unicidade num cartão de identidade?). É preciso escolher fazer um caminho novo e tomar decisões pessoais, o que provoca sonos inquietos.

Para ultrapassar essa inquietude que povoa a sequência genealógica  da nossa história humana, é preciso ousar sonhar e permitir deixar entrar a luz do Espírito Santo, a mesma luz que dizemos ter passado como o sol pela vidraça para o seio de Maria. Em Abraão, essa luz gerou a fé pessoal num único Deus. Em David, gerou a fé na misericórdia de Deus. Em José, essa luz fez ultrapassar a barreira do medo. Em Maria, fez habitar no nosso mundo o Deus-connosco. Em todas estas histórias pessoais, encontramos, para além da ascendência histórica, um hiato que permitiu apresentar-se uma nova possibilidade, lançada por Deus como hipótese melhor. Foi necessária uma boa dose de ousadia pessoal e comunitária para deixar Deus entrar na nossa história e fazê-la nova. Há que despertar dos sonos que inquietam com pouca coisa e ter a coragem, vinda do alto, de nos aquietarmos com o que Deus quer fazer em favor da humanidade.

O Papa Francisco, que tem uma imagem a representar São José dormindo no seu quarto, certamente se deixa diariamente interpelar pela mensagem de esperança para nos provocar com as mudanças com que está a reformar a nossa Igreja.

[Oração] Em: Novena de Natal 2015

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo