Publicado em Lectio Humana-Divina

A misericórdia, da emancipação que escraviza ao jugo que liberta

[Leitura]  Is 40, 25-31; Mt 11, 28-30; Papa Francisco, Audiência Geral 9.12.2015  em SNPC

[Meditação] Na audiência geral de hoje, o Papa Francisco responde à pergunta «É ingénuo crer que o Ano da Misericórdia mude o mundo?» desta forma: «Sim, mas a loucura de Deus é mais sábia que os homens». A objeção (aparentemente razoável) que lhe é feita é, em síntese: não haveria muita coisa a fazer para mudar o mundo em vez de, simplesmente, ficarmos a contemplar a misericórdia de Deus? A resposta do Papa desenvolve-se com a afirmação de que (também em síntese) a falta de misericórdia tem a sua raíz no amor-próprio que, somente ligado às instituições e estruturas, levar cristãos à mundanidade e à hipocrisia, em vez de fazerem «o que a Deus mais agrada…: a sua misericórdia, o seu amor, a sua ternura, o seu abraço, as suas carícias». O Papa mostra, assim, a convicção de que tornar o mundo mais humano depende de fazermos a experiência da misericórdia de Deus na vida pessoal e comunitária.

Penso ser esta uma forma de deixarmos de nos emancipar do Bom Pastor que veio para dar alívio às suas ovelhas e não dar-lhes “cangas”. Estas são para os “bois” e “jumentos”, ou seja, os que pensam que a nossa experiência neste mundo serve só para obedecermos a estruturas sociais e económicas de mera (por vezes, falsa) solidariedade social.  Pode acontecer que haja alguém que também pergunte: mas eu sou obrigado a aproximar-me da misericórdia de Deus − pela confissão, a passagem pela Porta Santa, etc.? − e seja a favor de que sejamos contundentemente levados a participar em atividades de cariz social, como o Banco Alimentar, de forma a que se não o fizermos podemos correr o risco de ficar fora da simpatia institucional dos grupos a que porventura pertencemos. Pois, é aqui que entra a Palavra do Papa a ser espelho da Palavra de Jesus: não somos obrigados a nada! Somos é convidados a contemplar o que Deus pode fazer, como Maria fez, diante do que lhe parecia impossível! Porque é Deus que faz o que a nós (e às nossas estruturas) não é possível. Por vezes, fazemos mais com a nossa quietude do que a nossa “solidariedade”. Não estou com esta afirmação a dizer que não devamos ser solidários, mas a afirmar que antes da solidariedade é preciso ter bem instalada no coração a capacidade de não segunda intenção ou de cumplicidade com as estruturas de egoísmo e manipulação em favor dos mais ricos, em que o “mal menor” é mais nocivo que o “bem possível”. A misericórdia, entendida, como a justiça de Deus, não faz só o bem possível, mas o bem total.

A justiça social pode dar-nos a impressão de nos dar alívio, mas, no final, se não for constantemente avaliada e reestruturada, pode levar a círculos de uma certa repressão continuada. A justiça de Deus, que é a misericórdia, é, altamente, o seu amor infinito a querer salvar-nos de todo o tipo de repressão social (por vezes instalada em sistemas aparentemente inócuos). Assim, quando estivermos cansados e oprimidos, vamos escolher que descanso? Não será de escolher «a melhor parte» (Lc 10, 42)? É como se, ao escolher por aceitar o convite de Jesus Cristo, dissesse: prefiro algum peso sabendo que, no final, o resultado é uma vitória, do que ter um enorme peso a fazer-me cada vez resignado a aceitar uma escravatura sem fim. Um exemplo muito banal, pode ser o da comparação entre uma família que está a pagar uma casa como bem essencial sabendo que, daí a poucos anos, a casa é deles, e uma família a pagar uma alta renda por uma casa de luxo que nunca será deles, mas do proprietário que está a ganhar muito para além do que gastou para a fazer. Mas, afinal, “olhando para o alto”, quem criou as estrelas? Elas estão à venda, ou são para todos podermos contemplá-las?!

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Autor:

Padre da Diocese de Viseu