Publicado em Lectio Humana-Divina

«Sin dolor no hay gloria», sem amor fiel não há relação

[Leitura] Gen 2, 18-24; Hebr 2, 9-11;  Mc 10, 2-16

[Meditação] Quem já teve a oportunidade de peregrinar a pé até Santiago de Compostela, reparou num refrão que aparece estampado nas camisolas que compramos como recordação e que serve de incentivo quando as vemos já vestidas nos que já fizeram essa experiência de chegar à meta do caminho. Parece-me estar este mesmo refrão “estampado” na vida dos que escolheram a vocação do Matrimónio e da Família, sendo felizes porque fiéis a um projeto, apesar das amarguras e lutas de que também se tecem os relacionamentos. As leituras deste XXVII domingo do tempo comum “abrem a porta” para a XIV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, sobre «A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo», que decorrerá de 4 a 25 de outubro de 2015, em Roma. Nos três textos, encontramos um convite a percebermos os três níveis da experiência humana de que faz parte a experiência da família como mediação intermédia indispensável. O primeiro nível da experiência humana é o da solidão, apesar de se perceber como ser social. Na verdade, não basta ter-se nascido para se ser pessoa. O ser humano é dependente à nascença de uma trama de relações necessária à sua sobrevivência em todos os níveis do seu ser. Por hipótese, se um de nós tivesse nascido sem um qualquer tipo de trama de relações minimamente estáveis, não seria uma pessoa segura e feliz, capaz de relação. Mas, mesmo assim, seria possuidor de um “detonador” de relação a que chamamos o sofrimento da solidão. O segundo nível da experiência humana é o da realização da solução que “mata” a solidão, a relação que encontra na família humana o seu melhor “habitat” de defesa e estabilidade, assim como de fecundidade. E mesmo que a família seja caracterizada por variações culturais, o seu substrato é misterioso: Deus previu o que lhe dá sustento e segurança, assim como finalidade. Um dos desígnios que permite viver essa estabilidade e finalidade é, precisamente, o da vocação: o homem é constantemente convidado a deixar o eu pai e a sua mãe para se unir à sua esposa. Por isso, conforme o Papa Francisco pede que a Igreja seja «em saída», assim a Palavra de Deus define a família como objeto deste deixar algo para ir ao encontro de outro desígnio de amor.

Um terceiro nível é o da Família a que Cristo veio convidar a fazer parte: a Família divina. Este salto foi possível com a Sua Incarnação-Vida(humana)-Paixão-Morte-Ressurreição. É belo sabermos que Aquele que santifica e os que somos santificados fazemos parte da mesma Família. Oxalá este Assembleia dos Bispos possa ajudar-nos a defender a família humana de tudo o que ideologicamente destrói a sua verdadeira identidade e missão: a de nos permitir viver boas relações de afeto e construção pessoal em vista à vocação a que Deus convida cada um como caminho para se integrar na Sua Família divina. Quanto àqueles que passaram ou passam por experiências negativas que obstaculizam a vivência destas três etapas para a vida divina, a Igreja, como grande Família de crentes, é chamada a ser Mãe solícita, procurando acolher e, gratuitamente, a ser aquele “hospital de campanha” e a ser comunidade “samaritana”, para que todos, mesmo apesar das dores causadas por tais experiências, possam chegar à experiência da glória que Deus nos quer dar a todos: o seu amor infinito. A família humana é uma etapa para uma meta: a família de Deus. Precisamos, por isso, não de estratégias pastorais que meramente fechem a família para a proteger, mas que a curem para que os que nela sofrem possam continuar a avançar para o Reino de Deus. Este é dos que forem simples como as crianças!

Rezemos, com o Papa Francisco, por este Sínodo da Família:

Jesus, Maria e José,
em Vós, contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
a Vós, com confiança, nos dirigimos.
Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
escolas autênticas do Evangelho
e pequenas Igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais se faça, nas famílias, experiência
de violência, egoísmo e divisão:
quem ficou ferido ou escandalizado
depressa conheça consolação e cura.
Sagrada Família de Nazaré,
que o próximo Sínodo dos Bispos
possa despertar, em todos, a consciência
do carácter sagrado e inviolável da família,
a sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José,
escutai, atendei a nossa súplica. Ámen.

ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu