Publicado em Lectio Humana-Divina

Eucaristia: «uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta»

[Leitura] Hebr 9, 11-15; Mc 14, 12-16. 22-26

[Meditação] A Solenidade de hoje é uma resposta corajosa à incredulidade daqueles que não acreditam na presença real de Jesus Cristo no pão e no vinho transubstanciados no seu Corpo e Sangue. Ao mesmo tempo é hora de os crentes redescobrirem a centralidade da Eucaristia na vida da Igreja e da “gravidez” de Reino que essa liturgia transporta até ao fim dos tempos. No Evangelho, S. Marcos relata-nos a preparação da Páscoa, não deixando de fora a forma que nos poderá sugerir algo de importante para a redescoberta do valor central e vital da Eucaristia: mandou providenciar «uma grande sala no andar superior, alcatifada e pronta». Será isto mera preocupação logística? Ou, também, nos convida a cuidar da forma como celebramos hoje, uma vez que o acontecimento desta Presença tem consistência em si mesmo, ou seja, pela força do Espírito Santo? Sugiro, pois, que consideremos cada um destes elementos para reflexão sobre a forma olhamos e celebramos tão sublime Sacramento.«Uma grande sala» − Um espaço aberto a todos, para todos os que quiserem contemplar este mistério através das palavras e gestos da Liturgia. Jesus nunca foi minimalista; não herdamos d’Ele o sentimento de minoria religiosa que, por vezes, sobressalta algumas das nossas comunidades. Grande sala e, porventura, aberta, como no tempo de verão, para deixar entrar ar fresco, mas não só: para que quem passa possa ver. A Liturgia é um ato público e não privado.

«No andar superior» − Sim, teremos sempre que subir alguma escada, para participarmos na Eucaristia. É um ponto de encontro em que Jesus desce e nós como que somos convidados a subir. É o cimo do Monte, lugar especial que Jesus sempre escolheu para os momentos mais significativos da sua mensagem e entrega. Subimos para também conseguirmos, de alguma forma, descer à vida, levando as boas notícias que por lá escasseiam.

«Alcatifada» − Sugere que entremos descalços: não de sapatos, mas de tudo o que é secundário ou daquilo que pode distrair o ofertório do que é essencial. A alcatifa é, também, sinal de conforto, pisando um chão que nos faz sentir bem, para evitarmos olhar para o relógio na tentativa de apressar o tempo.

«Pronta» − Nem tudo, na Eucaristia, tem de ser preparado por quem nela participa. Em primeiro lugar, ela é dom do alto. O abeirarmo-nos dela é que precisa de ministérios, mas há algo que já aconteceu de uma vez por todas, pois bastou um único sacrifício do Mediador da nova aliança para a nossa salvação.

Se calhar, as nossas igrejas não nos possibilitam esta disposição de fatores. No entanto, a metáfora serve para a preparação do espírito com que se celebra e para a organização litúrgica da comunidade. Se a celebração da liturgia se banaliza ou torna toda ferial, pode acontecer que percamos o essencial: o dom que somos chamados a acolher e a fazer próximo do dia-a-dia.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu