Ascensão de Jesus: entre a simbiose que mata e a separação para a omnipresença

2015-05-16 23.45.05[Leitura]  Act 1, 1-11; Ef 1, 17-23; Mc 16, 15-20; Público; Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais

[Meditação] A caminho do Santuário de Fátima, numa das estações de serviço, pude abastecer-me com a “cafeína” gratuita dos jornais, lendo as “gordas”. Com o meu phablet, fotografei duas chamadas de notícia que estavam na capa de um dos periódicos: a de um rapaz que matou outro pela razão aparente de que invejava algo do outro e a situação dos muitos jovens que colocam a hipótese de emigrar à procura de um futuro melhor. Como a peregrinação me solicitava uma partilha homilética acerca do mistério da ascensão e o movimento que acompanhava se identificava com o fator da educação dos mais novos, percebi que a proximidade destas duas notícias me impunha um relacionamento com a teologia da Festa da Ascensão do Senhor, em busca de uma luz que ressalta da Liturgia da Palavra.

O Papa Francisco declarou, sobre a Igreja, que a prefere acidentada porque vai para a estrada do que presa ao isolamento doentio. Não admira que nos aponte o ícone evangélico da visita de Maria a Isabel (Lc 1, 39-56) para nos falar da comunicação na família, apontada por Ele como “ambiente privilegiado do encontro na gratuidade do amor”. Na verdade, qualquer uma das notícias acima referidas nos fere, em algo, a nossa sensibilidade. No entanto, sai-me a pergunta: o país quer manter os jovens dentro para quê? Para os isolar ou para lhes dar “estradas” que eles possam ser eles mesmos? Se não for assim, “mata-los-emos”. Maria também estava no auge da sua sensibilide como mulher, com o acréscimo de mistério que a envolvia. E o que faz? Decide caminhar em direção ao futuro que lhe dá certezas, no espaço onde alguém precisa dela: a sua prima (pelos motivos conhecidos). E o cântico de louvor acontece, pela graça divina no desenrolar da história.

Prender os jovens só os “fere”, porque os fecha em círculos de ganância em pouca monta, em vez de, na fase de expansão em que se encontrar, poderem ambicionar tudo o que podem, antes de chegarem à fase do afunilamento (em que não poderão ser felizes com tudo o que conheceram, mas com um conjunto mínimo de fatores; cf. MARTIN SELIGMAN, 2007). Na verdade, o poder expansivo dos jovens combina com o mandato que Jesus, antes de subir aos céus, deixou aos seus apóstolos: “ide por todo o mundo e anunciai o evangelho a toda a criatura”. As motivações estudantis e profissionais dos jovens, carregadas do desejo de um futuro feliz, podem ser o “veículo” que transporte essa boa notícia que é o futuro feliz de cada um.

A segunda notícia não me assusta; assusta-me que queiramos ser de tal maneira diretivos com os jovens que, em vez de lhes proporcionarmos o que se deve, os mantenhamos no cerco onde não terão as oportunidades que merecem. Assusta-me, sim, deveras, a primeira notícia. Refere-se a uma simbiose doentia com bens materiais (aparentemente) ou a outros fatores ainda não conhecidos (de uma patologia mais profunda) que, em vez de significarem partilha de vida ao outro, significam desejo da morte do outro. Na sua Ascensão, Jesus separou-se fisicamente de nós; é um facto empírico. No entanto, prova-o a fé no mistério que a sua separação física transformou-se numa omnipresença. Quando a família é o que deve ser: espaço de crescimento para uma vida feliz, não lhe assusta que a vocação amplie as suas fronteiras. Os entendidos sabem que a família começou a entrar em crise (mesmo económica) desde que se começou a privatizar.  Esta privatização está a pagar-se cara, não ó em termos económicos, mas também quanto à aquisição de um futuro feliz para os mais novos. Vamos ser mais gratuitos com a partilha de um futuro cheio de possibilidades e menos diretivos com o provável determinismo simbiótico que o diminui (cf. C. Rogers 1961).

Do ponto de vista das ciências humanas, o crescimento sadio desenvolve-se (em condições normais) pelo desenrolar helíptico de dois fatores – a vinculação e a separação – que, acontecendo de forma diversamente gradual, permitem a aquisição da maturidade própria de cada etapa na vivência da tensão entre o medo que gera dependência e o desejo de autonomia (cf. Manuela Fleming, 2005). Como refere o Papa Francisco, nesta ocasião, “mesmo depois de termos chegado ao mundo, em certo sentido permanecemos num «ventre», que é a família. Um ventre feito de pessoas diferentes, interrelacionando-se: a família é «o espaço onde se aprende a conviver na diferença»” (citando a Exort. Evangelii Gaudium, n. 66).

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo