Publicado em Lectio Humana-Divina

Antioquia e Jerusalém: os primórdios do diálogo ecuménico

[Leitura] Act 15, 1-6; Jo 15, 1-8

[Meditação] Se estendermos os braços e virmos a distância a que ficam as nossas mãos, não concluímos com essa distância que alguma das mãos não nos pertence. Assim acontece com o Corpo de Cristo, a Igreja que, nos seus primórdios se viu necessitada de diálogo para manter viva a unidade, sem recusar a diversidade. Esta apareceu com a Igreja de Antioquia, com Paulo e Barnabé, que era mais dinâmica e acolhedora das “franjas” (os gentios); a primaz Igreja de Jerusalém, por seu lado, presidida por Pedro, era defensora da Lei de Moisés (com judeus e fariseus convertidos). Podemos comparar Antioquia ao nosso pé que vai à frente, quando caminhamos, enquanto que Jerusalém se assemelha ao pé que fica a segurar o corpo apoiado atrás. Há quem utilize esta comparação para relacionar a ética e a moral (alguns dizem que indevidamente, pois parecem ser a mesma coisa ou duas faces da mesma moeda; aqui, defendemos serem os pés de um mesmo corpo que caminha).Em Jerusalém, aconteceu, pois o primeiro concílio que podemos chamar de “ecuménico” no sentido em que os seus intervenientes tiveram que se confrontar com a dialética entre unidade e diversidade, a Lei e os novos costumes a decidir por causa do acolhimento dos pagãos convertidos. Parafraseando o Evangelho de hoje, foi um concílio em que foi preciso fazer uma importante “poda” na vinha do Senhor: deixar íntegra a cepa (os princípios que Jesus veio anunciar) e limpar os ramos, uns mantendo-os e outros deixando-os secar (como foi o caso da imposição da circuncisão). De facto, os profetas já tinham anunciado a preferência de Deus, de que a circuncisão que Lhe interessava era a do coração (cf. Dt 10, 16; Jr 4, 4; ) e assim o atesta Paulo em Rm 2, 28-29. Jesus completou estas afirmações proféticas com a  preferência da misericórdia, em relação ao sacrifício (cf. Mt 9, 13).

Na verdade, como hoje Jesus nos diz, os critérios apontados na sua Palavra limpam-nos de tudo aquilo que não é necessário para a vida, se aceitarmos pô-la em prática. Aceitemos este “banho” diário (ou semanal) da Palavra de Deus (não basta tomar banho de água…!). Segundo a soberana graça de Deus, daremos os frutos que Lhe aprouver, se aceitarmos permanecer unidos a Jesus e limpos do mundanismo com o qual a Palavra contrasta. Assim, os que, por vocação, estamos em permanente confronto com o mundo, não temeremos dialogar com os que, também por vocação, vivem mais “dentro” de um âmbito ou estilo (auto)protetor de Igreja ou comunidade. Proporemos a diferença que, em nada, diminui ou estraga a “colheita” que o Senhor prometeu fazer.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu