Publicado em Lectio Humana-Divina

Vida cristã: uma (c)alma aberta a Deus e a todos!

[Leitura] Act 14, 5-18; Jo 14, 21-26

[Meditação] A inabitação da Santíssima Trindade é um tema muito caro à Teologia da Vida Espiritual e tem a sua fundamentação no Evangelho deste dia: «Quem Me ama guardará a minha palavra e meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). Deus habita na pessoa que vive na sua graça. Esta presença divina na pessoa crente foi, para muitos, objeto de reflexão, como S. João da Cruz, Ruysbroeck, João de Kronstadt, Gregorio de Nisa, Eckhart, Kees Waaijman, entre outros. Do pensamento destes ressaltam afirmações e imagens numa tentativa de compreensão de como Deus age na alma humana para a transformar numa imagem viva do seu amor. Daqui resultam algumas convicções que nos poderão ajudar a viver a Palavra deste dia:

1º Deus não é verdadeiramente Deus em nenhum lugar, senão na alma humana. Há qualquer coisa d’Ele em todas as criaturas, mas é,  somente na alma humana, que Ele é divino, pois esta é a sua última e “deliciosa” morada (Eckhart). A alma, pois, tende a adquirir a forma do amor de Deus.

2º Deus forma a alma, ação que podemos “compreender” a partir de duas imagens: a perceção sensível e a introdução da forma na matéria. Com a primeira imagem, percebemos que uma pessoa é transformada à medida em que contactar visivelmente (nem que seja pelas imagens contidas na mente) com aquilo em que se quer deixar transformar. Daqui tiramos, já, uma conclusão pedagógica: cedemos à transformação naquilo em que nos acostumamos relacionar sensivelmente. Com a segunda imagem, percebemos que o amor introduz-se na alma do mesmo modo que a forma se une à matéria, num instante, sem que primeiro tivesse havido um ato sensível da pessoa, mas somente disposição para isso. Na primeira imagem, sugere-se a ação da pessoa; na segunda, um acolhimento passivo. É a mesma relação entre a “ascese” e a “mística”.

3º A transformação amorosa do crente não pode, de forma alguma, ser atuada pela própria alma. A única coisa que pode ela fazer é pacificar e reduzir ao silêncio: os sentidos, a inteligência e a vontade, assim como a memória, de forma que o Amado possa doar-Se a Si mesmo. As faculdades humanas devem estar vazias para estarem completamente presentes ao amor de Deus que as quer preencher com o seu dinamismo. É curioso que no dicionário português “inabitar” é “não habitar”, o que sugere que a pessoa precisa de “se despejar” de si própria para hospedar Deus.

4º Deus comunica-Se sem intermediários de qualquer tipo. Autocomunica-Se por Si próprio, de maneira que toma posse do núcleo mais abismal da alma que só Ele conhece. Basta que a alma o queira, para que Ele espolie todas as faculdades para a abrir mais o que ela poderia por si própria.

5º A passividade acolhedora do crente e a ação de Deus na sua alma “trabalham” para um único objetivo: a transparência de Deus na alma do humana. Para falar desta transparência, ascetas e místicos utilizaram diversas imagens, como a do espelho em cuja progressiva limpeza se vai vendo a imagem de Deus (Gregório de Nisa), a da luz do sol que perpassa do ar iluminando-o e aquecendo-o (Ruysbroeck),  a do fogo que se torna uma só coisa com a madeira desde a desumificação até à chama unânime (João da Cruz).

Desta reflexão poderíamos extrair duas conclusões, de acordo com o horizonte da liturgia de hoje:

1ª Vemos estes dois movimentos da iluminação gratuita de Deus deste o interior e a ação do homem deste a contemplação das coisas exteriores presentes em Pedro e Paulo, um que está sempre a fazer referências às Escrituras na sua pregação, acreditando na força da revelação (Pedro) e Paulo que tem diante de si uma assembleia composta de gentios, fazendo referência à criação e à bondade de Deus. Ambos anunciam o único Jesus, mas com a grande capacidade de inculturar os conteúdos da revelação nas comunidades a que se dirigem.

2ª É necessário, pois, como sempre foi e será, adaptar a linguagem às necessidades e urgências do nosso tempo, para podermos ser bons comunicadores do amor de Deus. Ele autocomunica-Se como quer e serve-se de quem e do que quiser para Se dar a conhecer. Como Ele está presente mais divinamente nas almas humanas, certamente seremos os melhores “interfaces” para a comunicação da sua graça que, por um lado, é “graça gratuita” (João da Cruz) que é preciso acolher com coração humilde, por outro, requer um esforço pessoal da gestão dos sentidos, da iteligência, da vontade e uma purificação da memória.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu