Publicado em Integração Psico-Espiritual

“Inverno” e/ou “Verão” na alma? Verificar o que está “suspenso”

O Evangelho desta terça-feria da IV semana do Tempo Pascal, mostra-nos os judeus a perguntar a Jesus sobre a clareza da sua condição de Messias: «Até quando nos vais trazer em suspenso?» (Jo 10, 24). Suspenso pode ser traduzido por “incerteza” ou “dúvida”. Esta pergunta continua a brotar do coração de homens e mulheres de hoje, crente e não crentes, acerca da atualidade do messianismo de Jesus, sobretudo nas sociedades secularizadas, em que muitos ruídos se puseram entre a Tradição autêntica dos Apóstolos e a situação da vida concreta em que Jesus Ressuscitado age, mesmo sem o vermos. O que fará com que, mesmo na Sua Presença, não tenhamos a coragem de O reconhecer e acreditar n’Ele? Onde estará o “suspense”?É preciso compreender se o que está suspenso ou posto em dúvida é a realidade de Cristo e a sua missão ou o estado em que está a nossa fé. Depende, também, em que “redil” queremos entrar ou nos queremos “fidelizar”.  Depende da unidade interior, entre a mente e o coração, pois, como dizia S. Paulo, «acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação» (Rm 10, 10). Em última análise depende, também, do contexto no qual vivemos (bom ou mau que seja) onde, com a nossa interioridade, aprendemos aonde colocar os pés.

Diante dos olhos dos judeus e, no nosso caso, na proposta da vida cristã, estão os valores do Evangelho que configuram o rosto e a missão de Cristo, o Messias. Ao encontro desses valores objetivos, entre o viajante e o caminho que conduz a essa meta pode haver uma distância considerável, contando que, ao contrário dos judeus do tempo de Jesus, não se tenha sequer dado um passo para se encurtá-la. Só um pensar e sentir afetuoso nos poderão ajudar a dar os primeiros passos em direção a esses valores, para podermos entrar na experiência de um confronto segundo o qual se poderá chegar algum dia a uma síntese (quem nunca der passos em direção a um valor nunca saberá).

Parafraseando A. MANENTI (Vivere gli ideali/2 – Fra senso posto e senso dato, 2003) ter uma alma (a psique, partindo na versão tridimensional da pessoa conforme S. Paulo a entende a partir da fisolofia grega, cf. 1Tes 5, 23) que seja “protagonista” de uma vida boa não dependerá tanto de um sistema “homeostático” (parado e fechado), mas “homeodinâmico” (vivo, em contínua reorganização). Os dinamismos da alma, que deseja ser orientada por valores, embora também tema correr os riscos inerentes, não funcionam como a temperatura do corpo que deve permanecer constante (devendo regressar ao estado prévio, quando desequilibrada). O nosso mundo não é como o mundo animal que sobrevive tanto quanto experimenta a paz entre necessidades e ambiente.

A alma humana (lat. anima ou gr. psique), para ser mediadora consciente de uma vida boa, depende de um dinamismo que não se repete sobre si mesma, espelhando-se em si própria (“à sua imagem e semelhança”), mas remete sempre mais para além de si, para fora de si própria, em direção a novas sínteses e, quer agrade ou não, novos contrastes. A via dos seres humanos não é percorrer o caminho das crisálidas à espera de se tornar borboletas, mas experiência de paixão no duplo sentido de gozo por possuir e dor pela distância. A cada passo, o equilíbrio adquirido é “transgredido” para um mais avançado, com os inconvenientes que comporta o instável encontro entre conteúdos objetivos e correspondentes tomada de posições subjetivas.

A vida boa, caraterizada, por enquanto, pela alternância entre “invernos” e “verões” da alma humana, desenvolve-se na aprendizagem da não definitividade e mantém-se numa situação de provisoriedade não não cessa de surpreender. O que abre ao bem é incompleto, não o definitivo. Na cena evangelica evocada no início (Jo 10, 22-30), reparamos que Jesus está diante dos judeus não como quem Se impõe como estático ou definitivo no seu modo de agir ou de Se apresentar. Ele tem formas diferentes de Se acomodar aos vários tipos de contextos e vários graus de errância humana e ritmos de caminhar. Permanecer estático no confronto ou alternância entre o “inverno” e o “verão” da alma depende se escolhemos estar parados (suspendendo a marcha) diante deste Messias uno-com-o-Pai-que-O-enviou ou se escolhemos caminhar, deixando-nos acompanhar por Ele, à luz dos seus ensinamentos e gestos que os comprovam.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu