Conversão a três níveis para a experiência do Ressuscitado

Neste III Domingo da Páscoa, refletiu-se que o processo de fé que leva a acreditar na manifestação de Cristo Ressuscitado, para a subsequente possibilidade de nos identificarmos com Ele, a pontos de termos a coragem de viver a missão do anúncio do Evangelho é um processo longo que vai desde a incredulidade ou da dúvida até à atitude crente, primeiro passiva e, depois, ativa. Neste pequeno artigo, oferecem-se mais alguns elementos ou instrumentos para que este processo não seja meramente teórico e passe do foro da Liturgia celebrada ao “atelier” da vida íntima e pública do quotidiano. Assim, para uma configuração com Cristo Ressuscitado, para que o Amor com que somos amados se transfigure num amor perfeito na relação com os outros, propõem-se três níveis de conversão, uma vez que o ser humano crente (capaz de crer), embora tenha perdido algures ou ainda não se tenha assenhorado da unidade da sua imagem criatural inicial, está sempre à porta de um convite que é a possibilidade de entrar sempre no dinamismo de uma vida nova, através do uso de todas as suas faculdades, desde a rezão até ao seu coração, passando pelo caminho árduo, mas maravilhoso, do crescimento em autenticidade (junção entre o seu ser real e o seu ser aparente).Portanto, aventuremo-nos nos seguintes níveis de conversão, para vivermos uma maior “docilidade” frente a Cristo Ressuscitado (a ordem cronológica interessa menos do que a lógica da harmonia causada pela contemporaneidade dos elementos):

  1. A conversão intelectual conduz a um esclarecimento radical no plano do conhecimento, abre à verdade, desenvolvendo no sujeito a capacidade para o realismo crítico. Daquilo que “me parece” pelos sentidos, passa-se à observação mais objetiva da realidade, daquilo que “é em si mesmo” .
  2. A conversão moral modifica o critério das próprias escolhas: do que é ditado pelas próprias satisfações passa-se a agir segundo o critério dos valores morais objetivos e transcendentes, últimos pontos de referência diante dos quais o sujeito é chamado a conformar-se para garantir a descoberta da sua autenticidade. Garante uma autocrítica diante dos próprios conhecimentos, das próprias intenções e ações em ordem aos valores.
  3. A conversão religiosa consiste em «ser presos por aquilo que nos toca absolutamente. É enamorar-se de forma ultramundana. É entregar-se totalmente e para sempre sem condições, restrições, reservas» . Este entregar-se é um estado dinâmico e não um ato simples. Manifesta-se na consciência existencial através da aceitação estabelecida de uma vocação específica à santidade. Não há, por assim dizer, fim para esta conversão, ilimitados como são o dom de Deus e a inquietude do homem crente .

Estes três níveis ou, melhor, âmbitos de conversão possibilitam reencontrar-se a unidade ou harmonia interior para uma vivência mais coerente da fé professada na vida pública do quotidiano, encurtando o caminho que leva da Palavra anunciada à sua incarnação na vida pratica diária.

O Ressuscitado mostrou aos seus discípulos as mãos e os pés (cf. Lc 24, 39), manifestando-Se como Aquele que Se entregou no concreto. A entrega concreta ou radical é sinal de uma mente e de um coração sintonizados com um Amor que Se comunica.

(Fundamentação: B. LONERGAN, Il Metodo in Teologia)