Publicado em Lectio Humana-Divina

Há por aí alguém que não tenha sido “imerso” na Palavra de Cristo?

[Leitura] Ez 47, 1-9. 12; Jo 5, 1-3a. 5-16; Verbum Domini; Jubileu da Misericórdia

[Meditação] Na liturgia de ontem, aprendíamos que a mera visão de sinais não basta para termos fé; é preciso caminhar ao encontro da verdade que, efetivamente, é a Palavra de Deus cumprida na nossa vida. Com os sinais ficamos à tona da água. É preciso mergulhar, mesmo, dentro da Palavra de Cristo para que a cura (salvação) aconteça. Os símbolos “atiram-nos” para a realidade, mas não são “a” realidade. Quanto à Palavra de Deus, como aconteceu com o episódio junto à piscina de Betsatá, ela é dinâmica: ela mesma se move para junto de ti. Não serás “imerso” nela, mesmo, se não quiseres ou se fechares os ouvidos do teu coração. Foi Jesus que se deslocou para junto daquele enfermo-havia-trinta-e-oito-anos. Não podemos pensar que o acesso à Palavra é só para os que sabem “mergulhar” na leitura… e os que não ouvem, sequer?

É pena que a Igreja continue, apesar de um Sínodo sobre a Palavra de Deus (Verbum Domini, onde a expressão “todos os homens” trespassa todo o documento), por um lado, a ser sacramentalista, realizando sacramentos sem muita preparação catequética dos “fiéis”; por outro, a não expandir os tempos e lugares de leitura e partilha à volta da Palavra de Deus, traduzindo-a por palavras simples a todos os que não têm (por variadíssimos motivos) meios e oportunidades de acesso à mesma; ou porque ainda não se cruzaram com a sua eficácia. Ainda bem que o Papa Francisco se lembrou de referir a abertura da Porta do próximo Jubileu (do Ano da Misericórdia) para que as portas de todas as igrejas se “escancarem” e todos os homens possam ter acesso à misericórida de Deus.

Devemos todos, sobretudo os batizados, tomar a “enxerga” (no sentido de enxergar = “ver mais longe”), descortinando tempos e formas para que a Palavra divina realize na vida de cada um (por um caminho mais acompanhado da Palavra aos Sacramentos). Já não se trata da considerada redução de símbolos nos sacramentos da Igreja Católica; trata-se, hoje em dia, da diminuição do acesso à “piscina da Palavra de Deus”. Não aconteça que, ainda hoje, escutemos alguém dizer (passe a paráfrase): “Senhor, não tenho ninguém que me introduza na piscina da tua Palavra, mesmo quando uma simples audição me agita o interior ou, por não escutar bem, me sentir agitado por não ter acesso… não tenho a sorte/entendimento/possibilidades de outros”.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

Autor:

Padre da Diocese de Viseu