Crer para ver ou o medo da sombra

[Leitura] Gen 4, 1-15. 25; Mc 8, 11-13

[Meditação] Possuídos pelo sedentarismo do apego ao “campo” característico de Caim, somos, muitas vezes, levados a pedir sinais que justifiquem o nomadismo que nos é sugerido pela vida em mudança. Trabalhamos e tendemos a registar patente do que fazemos para nos assegurarmos de tirar salário constante disso. Tememos tudo o que ameace esse usufruto. E poderá acontecer, como consequência, o mal…

Outra mentalidade é a de quem, mais associado ao papel de Abel, o pastor, se sente sereno por trabalhar com a sensação de que nada lhe pertence e que hoje pode estar aqui e amanhã estar ali; de ter estas ou aquelas “ovelhas” que, quando crescidas, já poderão não ser do mesmo proprietário. E poderá acontecer, como consequência, o bem…

Caim e Abel refletem duas culturas: uma que se refere à “margem” de cá e outra à “margem” de lá, onde Jesus, muitas vezes, foi para Se apartar do frenesim da multidão. Pelo menos, o que aconteceu a estes dois irmãos terá sido um legado importante para o terceiro irmão, Set, no sentido de nos ajudar a decidir como levar esta vida para a frente: a colocar o coração na outra margem enquanto se caminha nesta terra ou ser caminheiros errantes para sempre sem rum. O melhor será fazer a seguinte síntese, parafraseando Santo Inácio de Loyola: “fazer tudo como se tudo dependesse de nós, sabendo que tudo depende de Deus”.

Assim, já não nos assustará que não reconheçam o trabalho que fazemos, sendo que, como dizia Madre Teresa de Calcutá, afinal sempre foi tudo “entre ti e Ele”. É preciso acreditar, para que a visão do seu amor esteja sempre nos nossos corações, ainda que não sentida emocionalmente. É preciso não cair na tentação de Tomé (cf. Jo 20, 25) e do filho mais velho da parábola do filho pródigo (Lc 15, 11ss): de ter medo da sombra que, por vezes, sentimos quando falta uma perceção física-sensível do amor de Deus. É preferível a atitude de crer para ver, mesmo que só se tenha um vislumbre da luz desse Sol “ternurento”, do que estar à espera de ver, correndo o risco de só se verem sombras da escuridão da alma que só remetem para as “penúmbras” irreais, mas prejudiciais, do medo. Porque não será a suposta falta de reconhecimento do que somos ou fazemos que causará essa “sombra”, mas, porventura, a nossa falta de perceção crente desse “sol”. Prova-o tudo o que Jesus veio dizer e fazer, e a Sua vida entregue por todos.

[ContrmplAção] Em: twitter.com/padretojo