Publicado em Integração Psico-Espiritual

Formação da Identidade e “vinculação” à Família de Deus

Na cena do Evangelho descrita em Mc 3, 31-35, que há poucos dias proclamámos na Liturgia da Palavra (3ª-feira da III semana do TC B) contemplamos Jesus a identificar-Se com a Família daqueles que fazem a vontade de Deus. Aos doze anos, vimo-Lo ir ao Templo e a identificar-Se com aquele espaço como casa de Seu Pai, onde Ele queria de preferência a estar no caminho de regresso a casa da família de Nazaré (cf. Lc 2, 41ss). Esta “perda” e “encontro” que definirá, mais tarde, a personalidade de Jesus adulto a identificar-se com uma nova família sem excluir a primeira (a de Maria e os seus familiares) pode ser descrita, perfeitamente, com  a premissa da “dupla hélice psicológica” apresentada por Manuela Fleming (2010), onde se defende que a formação da identidade de uma pessoa acontece mediante uma interação dialética, ao longo de toda a vida, entre a vinculação e a separação-individuação.

Nos diversos estádios do desenvolvimento do ser humano, esta interação vai tendo configurações diversas. Como na história de Jesus, acontece também com a história de cada indivíduo: a separação-individuação predomina na adolescência, depois de um período de latência e da interação dinâmica entre vinculação e separação que se inicia na primeira infância.

É através do desenrolar do progressivo processo de autonomia, na sua tripla dimensão – emocional, comportamental e de valores –  que o adolescente assegura a sua identidade e afirma a sua diferença face aos que o rodeiam. Na transição para a idade adulta, com os novos desafios e novas tarefas que essa implica, as vinculações primárias mantêm-se e têm lugar novas vinculações, com a capacidade para uma decisção vocacional.

A formação da identidade depende de uma sequência interdependente entre indivifduação (naquilo em que a pessoa se aproxima) e autonomia (daquilo que a pessoa se afasta). A autonomia de que estamos a falar é defendida no mundo científica não com uma autoconfiança definida como o “contar consigo próprio”, mas como o “contar com o apoio dos outros” como suporte para se construir a própria autonomia. Os adolescentes contam com o suporte dos pais para serem capazes de conseguir “navegar” em todas as mudanças (fisiológicas, psicológicas, de papéis, de relações, ideias, conceitos, ambientes e situações…), onde eles não só contam com o seu “mundo interno”, povoado ou não de “bons objetos” propiciadores de confiança e de segurança, mas também com as relações atuais com seus pais, pares, amigos e adultos significativos. É nesta tensão entre “mundo interno” e “relações atuais” que se pode “jogar” a vinculação à Família de Deus no sentido de a pessoa ser capaz de fazer a Sua vontade, com a bondade e liberdade que isso implica. Até à adolescência “pesam” quase exclusivamente os laços e vínculos afetivos; a partir desta idade, dada a necessidade instrínseca de autonomia, pesarão mais os fatores de relacionamento que permitirão novos vínculos.

Concluo que a pertença à Família de Deus não é meramente e só um “ponto de partida” na vida (no Batismo da criança ou nas etapas festivas do processo Catequético), mas também um “ponto de chegada” decisional nas “pontes” de passagem entre cada etapa, nomeadamente naquelas onde se decidem os aspetos essenciais de um projeto de vida, como área de estudos, namoro e construção de uma família ou o sonho por uma entrega de consagração especial.

Um repto aos educadores e catequistas: não se deveria deixar ao acaso o acompanhamento desta interação tensional entre estes fatores do crescimento e o querer fazer parte da Família de Deus, pois este relação, em última análise, não deverá ser imposta, mas quase exclusivamente a vontade do sujeito a querer segurar-se na Vontade de Deus como seu refúgio e suporte para se cumprir um desígnio maior que não tem a sua lógica assente nestas “leis”, mas fundado no Amor ultramundano possível de contemplar e concretizar à luz da Palavra e do Espírito que a acompanha. Muito influi, também o apoio dos pais e educadores no incentivo à atenção quanto aos valores espirituais, sobretudo num tempo de uma secularização exacerbada e o ambiente educacional onde essa atenção é sugerida. Talvez se possa falar de uma “evangelização progressiva” nas etapas de crescimento da pessoa, para além da nova evangelização e da evangelização das culturas.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu