Publicado em Integração Psico-Espiritual

O contributo do limite

A história de cada um de nós é a história dos primeiros meses, dos primeiros anos de desenvolvimento, onde vulnerabilidades e potencialidades configuraram a pessoa que somos, estruturando-nos e estabelecendo as mediações que contribuíram para um fechamento mais ou menos trágico na ansiedade conflitual ou para uma abertura orientada para o crescimento na autotranscendência. Não estranhe o(a) leitor(a) que afirme que estes dois resultados convivem na pessoa que somos na forma de dialética de base, embora cada pessoa possa revelar mais um do que outro como tendência. A “vocação sublime à santidade” joga-se precisamente no equilíbrio da troca de operações entre aquelas operações (fechamento e abertura).

No entanto, tenho cá para comigo que aquela convivência sã e integrada com a experiência do limite (aspeto que provoca o fechamento) e com a experiência de abertura (que expande no crescimento) é possível quando se parte precisamente dos próprios limites concretos que configuram o nosso carácter ao nível cognitivo, afetivo e volitivo, “sofrendo-os” no sentido positivo da paixão “pathos” que lhes recolhe a energia vital que se pode orientar para uma finalidade de bem. Esta arte aprende-se através de um princípio chamado de “frustração óptima”. Esta significa que cada desenvolvimento resulta daquele equilíbrio entre satisfação e renúncia ou frustração, evitando excessos de satisfação e de privação.

Mas a contemplação e o “sofrer” justo dos próprios limites tem um grande inimigo: a tentação do imediato. A procura do imediato (soluções imediatas, cura imediata, satisfação imediata dos desejos…) é uma atitude ambígua, pois, embora contendo potencialidades, presta-se facilmente a trair a realidade de mistério contida quer nos limites, quer nas potencialidades. Na prática, quando procuramos o imediato, recusamos a tensão da progressiva, por vezes lenta e quase sempre penosa, transformação da pessoa que somos para o que podemos vir a ser. Elevado ao absoluto, o imediato tornar-se-á negação do próprio desenvolvimento pessoal e, concretamente, do mistério que somos.

Em ambiente quaresmal, podemos considerar que é também na experiência do limite que podemos fazer a experiência de Cristo, sentindo aí a Sua presença. Assim, também faremos a experiência da abertura como experiência pascal e não meramente experiência de conquista calcolista–material dos valores. É assim que psicodinamicamente podemos ler a afirmação paulina: «se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos» (Rm 6,8).

Autor:

Padre da Diocese de Viseu