Publicado em Lectio Humana-Divina

Nenhum mandamento é obstáculo para a intimidade com Deus

[Leitura] Hebr 6, 10-20; Mc 2, 23-28

[Meditação] Se escutássemos a afirmação de Jesus «O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado…» de forma a aceitarmos todas as suas consequências, o que seria do que ainda resta do legalismo de algumas instituições religiosas? Jesus foi o precursor da intimidade entre a humanidade e Deus. Conquistou a sua permanência. Para isso, Ele teve de travar batalhas contra o legalismo das instituições (também religiosas) do seu tempo. É curioso que “re-ligião” (re-ligare) deveria ser ligação constante com Deus. O que faz quando o legalismo afasta d’Ele? Este perigo derivará do antropocentrismo… (re-ligar com qualquer atividade para mero benefício material do homem…).

Repito: se aceitarmos todas as consequências daquela afirmação de Jesus, então o Dia do Senhor (e tudo o que anda à volta dele) não deverá servir para “sustento” de instituições, mas para sustento do bem total das pessoas, mesmo que para isso seja preciso relativizar algumas regras, como se vê no exemplo de David, citado por Jesus (que, por isso, continua atualíssimo!).

Conclui-se, assim, que há muitas coisas a perturbar a intimidade da pessoa com Deus, para sempre estabelecida pela Paixão e Ressurreição de Jesus Cristo. O Mandamento do Amor, se espartilhado ou fragmentado por muitos mandamentos absolutizados ou despersonalizados (não tendo em conta a pessoa no seu contexto vital), pode ser que sirva mais os objetivos humano-mundanos das instituições do que aquele que foi o objetivo principal da missão de Jesus: abrir à humanidade as portas do Reino para uma definitiva relação com Deus (foi para ilustrar isso que “o véu do Templo se rasgou”; cf. Mt 27, 50).

Para fugirmos da (possível) acídia que tem como origem o desânimo consequente de se ter a consciênica de não se conseguir o cumprimento de todos os mandamentos, pode valer atirarmos o nosso (frágil) coração para o (possível) cumprimento do Mandamento do Amor. “Prefiro a misericórdia ao sacrifício” (cf. Mt 9, 13). Vamos aprender (na prática) o que isto significa? Estejamos como estivermos, acolhamos o convite à intimidade. Pode parecer que temos limites humanos, mas Ele não, para nos alcançar ou esperar por nós!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu