O Evangelho, a vergonha e a superficialidade

Num destes dias, a Liturgia da Palavra punha-nos diante dos olhos duas figuras contrastantes no que toca à forma como se relacionavam com Jesus Cristo: S. Paulo (Romanos 1,16-25) e o fariseu rico (Lucas 11,37-41). Paulo proclama a glória de Deus através da sua fraqueza e, por isso, não se envergonha pelo Evangelho que é a fonte da sua força; o fariseu, por seu lado, não é capaz de ver mais para além da aparência de Jesus (perguntando-lhe porque é que não lava as mãos antes da refeição).

A vergonha é definida pela psicologia como um sentimento de desprazer que se produz na relação social em ocasiões em que o indivíduo se sente rebaixado entre outras pessoas por ter cometido um acto inconveniente (ou que assim o crê ser), de haver fracassado em algo que não deve ter feito bem, encontrar-se em falta ou numa situação desesperada, etc. Esta definição deixa-nos transparecer que no sentimento de vergonha está sempre subjacente a presença de uma crença ou uma forma pessoal de perceber a realidade. Neste sentido, podemos encontrar nas pessoas, sobretudo nas crianças, uma vergonha natural, que, conforme o contexto familiar e social e a personalidade de cada um, se vai perdendo à medida que ela se sociabiliza. Conhecemos da personalidade de Saulo de Tarso e do acontecer dramática da sua vocação esta socialização que integra o Evangelho. O assumir das suas fraquezas deu amplo espaço à lógica de Deus, relativizando o pensar dos humanos.

Uma outra vergonha, menos natural, será a de quem acolhe com uma diplomacia defensiva como a do fariseu rico. Nos adultos, ao contrário das crianças, a vergonha poderá aparentar-se como um mecanismo de defesa que a esconde, mas que ao olhar mais permanente e atento se revela como uma forma indirecta de não revelar a superficialidade do sujeito. No fundo, o fariseu reconhece a importância de Jesus e a misteriosa validade da sua mensagem. No entanto, não lhe dá jeito nenhum para o seu status social dar-lhe importância. Para isso, acolhe-o com uma subtilíssima repreensão: “admirou-se por Ele não ter lavado as mãos”. Admiração superficial. Não o admirou  pela Sua Pessoa e a Sua Mensagem, mas antes por Ele não ter cumprido um rito que ao fariseu daria o comando da situação.

Estará perdida esta vergonha defensiva?!… Quantos ambientes ainda não estarão infestados desta diplomacia (in)conveniente? Quantas pessoas não estarão subjugadas à superficialidade nos actos públicos, deixando de lado princípios em que profundamente dão algum assentimento, só para se garantir um mínimo de atenção social e uma mera segurança económica. Por quanto tempo mais se pagará o preço caro por uma ninharia que não salva?! O crente segue o que diz a Palavra, única defesa que pode trazer a paz interior e exterior: «Não ponhais a vossa confiança nos poderosos, nem nos homens, pois eles não podem salvar» (Sl 144, 3). A Palavra ajuda-nos a saber diferenciar a natural vergonha que faz parte do crescimento e que, também  naturalmente, nos afasta dos excessos na relação interpessoal, da vergonha como mecanismo de defesa que nos isola das relações profundas e dos verdadeiros valores.