A totalidade do homem num "copo" aberto

A visão tridimensional que beneficie a unidade antropológica do homem ainda não é de todo assumida pela totalidade do próprio homem. Ainda há quem tenha na mente aquele dualismo “corpo e alma” que pretende classificar aquela unidade, sem, contudo, o conseguir totalmente, pois se esquece aquela dimensão fundamental que é o “espaço” vital somente “habitado” pelo próprio homem que é a dimensão espiritual.
Já S. Paulo, em 1Tes 5,23, defende esta tridimensionalidade, ao afirmar: «que o Deus da paz vos santifique totalmente, e todo o vosso ser – espírito, alma e corpo – se conserve irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo». Assim, pneuma, psiké e soma são os elementos a definir a totalidade do homem e a deixar de lado aquele dualismo redutor, a deixar a palavra alma para a realidade psíquica que anima a vida psico-física e psico-social do homem, enquanto que a dimensão pneumatológica ou do espírito, será aquela que o distingue do restante mundo animal.
Viktor Frankl, ao compendiar a análise existencial e a logoterapia, apresenta a ontologia dimensional a única capaz de não reduzir o homem a um conjunto de níveis (como defendeu M. Scheler) ou de estratos (como defendeu N. Hartmann), mas a defender uma unidade e totalidade a partir da única dimensão capaz de o fazer, aquela que o distingue: a espiritual – a única dimensão do ser unitário-global do homem. Assim, da tridimensionalidade do homem resulta que a autenticidade do homem pode aparecer só nos arriscamos entrar na dimensão espiritual.
Na verdade, enquanto a vida vegetativa do homem pode ser explicada pela dimensão corpórea e a sua vida animal, se necessário, através da dimensão do psíquico, a existência humana, enquanto tal, a existência pessoal espiritual, não é pura psicossomática. Precisamente como entre a corporeidade e o psíquico, também a oposição entre a necessidade e a liberdade constituem uma projecção no espaço temporal que, ao mesmo tempo, se poderão posicionar para uma possível solução da oposição, precisamente através de uma óptica dimensional espiritual.
No interior do sistema físico, a causa, o efeito e o contra-efeito unem-se para formar um “círculo causal” fechado em si (de tal maneira que se define o sistema nervoso como “sistema fechado”). – Mas… como é que este sistema fechado em si poderá ser ao mesmo tempo aberto e disposto a acolher em si o psíquico e o espiritual, a deixar-se influenciar, com o objectivo de tornar possível o organismo ao serviço da pessoa? Fina aqui, para a reflexão uma metáfora “transfisiológica”:
Contemplemos um simples copo em cima de uma mesa. Ao mesmo tempo em que a sua sombra se projecta no plano horizontal da mesa por causa da luz que ilumina o copo e forma um círculo fechado na linha dessa mesma sombra, na dimensão imediatamente a seguir, a vertical, no espaço, é “aberto” e “pronto” a acolher em si qualquer coisa. Enfim, enquanto a própria dimensão espiritual constitui o “espaço” do homem, à medida que ele se abre a essa dimensão, ela vai transformando-o na sua totalidade.