Ascética regenerativa

Na famosa obra “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, descobrimos que a passagem da Terceira Era da “Terra do Meio”, dominada pelos Elfos, à Quarta Era, dominada pelos homens, delineia uma tensão entre os valores germânicos e cristãos. As raízes literárias do autor fundam-se, por um lado, na literatura medieval, com as sagas nórdicas, e a literatura inglesa antiga; e na Igreja Católica, por outro. A esta dupla proveniência corresponde a ideia de um Senhor que provém, por um lado, do senhor germânico tirano, Sauron, e, por outro, de Aragorn.
A estrutura épica desenvolve-se através dos seguintes pontos cardeais:
1. O processo de separação da comunidade: Frodo com Sam e Merry com Pipino, que emigram da sua amada terra do Shire;
2. A discese no “reino dos mortos” (“underworld”), como metáfora do conhecimento: a Irmandade do Anel que atravessa, primeiramente unida e depois dividida, vários territórios ligados ao Bem e ao Mal;
3. A ascese na Graça (“overworld”), com a Irmandade do Anel que vence Sauron e aos seus exércitos do Mal;
4. O retorno e a reintegração na comunidade: Aragorn é restituído aos homens como legítimo Rei, enquando os hobbit levam para a Contea os novos valores e os novos conhecimentos adquiridos. 
Separação-discese-ascese-retorno/reintegração mostra-nos a sequência que nos poderá ajudar a realizar um esforço de ascese que não seja um simples e, por vezes, inútil esforço baseado em fazer “coisas difíceis”. É verdade que a ascese cristã se resume numa “caridade na verdade”. No entanto, para que o círculo do mal não se repita ininterruptamente em cada crente, aquela sequência poderá ajudar a percorrer aquele “círculo virtuoso” que nos leva, como que em espiral, a regressar transformados à vida que será também transformada pelo nosso estilo de viver.
É interessante notar que a obra de Tolkien, do ponto de vista político, atribui à discese a categoria de natureza e à ascese a categoria de civilização; do ponto de vista psicológico, atribui à discese ao território mais obscuro e interiorizado (como a perda da racionalidade humana, o contacto com a dor e o desespero, e o caudal de fracassos ou perdas passados) e à ascese o paraíso interno caracterizado por amor, lealdade e o bom senso. Estes são dados pelo poder regenerativo presente no interior de cada indivíduo e que permite o restauro de uma comunidade com que se está envolvido.
Pensando a um leigo em relação com a família e a comunidade, a um seminarista, a um padre ou a um chefe de uma repartição qualquer, ou seja, à pessoa que é, por essência, relação, a melhor ascese será aquela que desce ao interior, de onde nascem muitas das suas amarguras e pecados (cf. Mc 7,21), para os reconhecer como produtos da realidade exterior mal “digerida” e controlada, para depois subir à realidade novamente, regenerando o interior e o exterior, na relação. Assim, a ascese também poderá ser parte daquele jugo suave ou fardo leve que o Senhor nos convida a carregar, como causa da felicidade pessoal e dos outros (cf. Mt 11,30). Para que a ascese seja eficaz, um método ajuda:
1. Partir da realidade comunitária para uma
2. Viagem até à verdade do interior pessoal;
3. Subir da realidade interior à Verdade que unifica a pessoa
4. e a reintegra, renovando, na comunidade.