Publicado em Integração Psico-Espiritual

A decisão de vida entre "ti" e os "objectos"

Na vocação vive-se, hoje, mais do que ontem, o drama da pouca quantidade dos ingressos (seja na vocação de consagração, seja no matrimónio) e um alto número de abandonos depois de uma decisão que parecia definitiva. As instituições (no geral, a Igreja e a Sociedade) lamentam-se da desproporção dos números mas raramente pensam nos critérios qualitativos que poderiam favorecer um aumento de decisões maduras e da perseverança vocacional.
Existe um factor psíquico que tem um peso importante sobre a disposição interior que enrobustece a decisão de vida: trata-se da capacidade de estabelecer “relações objectais totais”. Por “objecto” entende-se as representações interiores que cada um faz de si mesmo, dos  outros, das coisas e dos símbolos (por exemplo: a Igreja, a Família, uma Congregação Religiosa, o chamamento, a missão, um valor…). Uma decisão definitiva de vida, ligada a uma instituição, é possível, legítima e salutar e a disposição a tal relação depende também de uma adequada maturação na capacidade de relações objectais “totais”. É pressuposto que a qualidade destas relações resulta da conjugação harmoniosa de elementos cognitivos, afectivos e comportamentais de uma particular relação.
No fundo da pessoa, fruto da sua herança genética e da sua relação com as pessoas e o meio ambiente, assim como do fruto das suas experiências relacionais com os mesmos, está sempre presente uma ambivalência mais ou menos acentuada cujos contornos podemos descobrir na resposta a esta pergunta: até que ponto o desejo da realização de si concorda com o ideal do seguimento de Jesus e até que ponto supõe um ideal centrado no “eu”? A averiguação realista desta questão na pessoa que quer entrar numa caminhada vocacional ou daquela que quer melhorar a sua vivência vocacional é determinante, no sentido de fortalecer a sua ligação com a comunidade de pertença (Igreja, família, grupo, Instituto…). Quanto mais a relação com a referida comunidade estiver auto-centrada na pessoa, será mais fraca; quanto mais aberta estiver à ideia  objectiva que a comunidade tem de si própria e da sua missão, mais forte será e promissora de uma perseverança  que, na perspectiva bíblica, é um dom da graça doar-se lá onde os olhos contemplam sempre mais a Deus e ao próximo na lógica do grão de mostarda. Esta é uma forma mais elaborada de defender o ditado “é no dar (desinteressado e sem limites) que se recebe”.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu