Publicado em Integração Psico-Espiritual

A pedagogia diferencial do Médico total

Por estes dias, temos contemplado nos textos do Evangelho a solicitude de Jesus Cristo para com pessoas oprimidas por situações de doença e, por isso, marginalizadas do resto da comunidade. No 22º Domingo do Tempo Comum, vêmo-Lo a curar um surdo-mudo com a expressão “Abre-te” e com os gestos simples de tocar com o dedo nos ouvidos e com a sua saliva na língua, restituindo-o à sua fundamental capacidade de comunicar. Nesta segunda-feira da 22ª semana, vêmo-Lo a curar um paralítico com a expressão “Levanta-te, põe-te no meio, estende a tua mão” e com o gesto da afirmação da sua fundamental condição de estabilidade diante da comunidade. S. Paulo, o iluminado pela Ressurreição de Jesus, assumindo a sua fraqueza, tomou consciência de que, por ela, podia completar o que faltava à Sua Paixão.

Assim, na intimidade distante da multidão com o surdo-mudo, no confronto com o grupo de fariseus com o paralítico e através da fraqueza de Paulo, Jesus mostra o seu amor total e diferencial ao mesmo tempo para com os que estão privados de saúde e bem-estar espiritual. Esta sua atitude é uma lição para nós, crentes, carregados de vontade de cooperar nesta sua missão, mas, muitas vezes, talvez com o exagero de uma determinação desenraizada dos problemas concretos das pessoas que nos aparecem à frente, acabamos por oferecer às mesmas uma solução pré-concebida ou, então, elencada numa leitura oblíqua dos textos sagrados ou, ainda, a partir de um sistema produzido por tradição de mera experiência humana.
A pedagogia de Jesus é diferencial ou diferenciada, tendo em conta a situação da doença de cada pessoa e a sua particular relação com o meio e a comunidade, com a qual Jesus também quer interagir. Na cura, o Mestre tem sempre presente várias coordenadas: a privacidade, a relação social, a presença e o poder de Deus, a atitude humilde e a fraqueza de quem se apresenta doente… tem em conta o interior e o exterior. Parte sempre de um quadro referencial mais amplo, para poder restituir as pessoas à sua ampla realidade que é a sua dignidade humana.
Assim, podemos perguntar-nos: – Como é que nós podemos curar um doente ou animar um só desanimado com uma oração intimista? – Como é que podemos aconselhar a um paciente que vá para casa rezar?
A oração é necessária, imprescindivelmente, mas acompanhada por gestos concretos, privados ou públicos, que ajudem a realizar a efectiva cura da pessoa, seja ela física, psicológica, espiritual/moral e relacional. Esta pedagogia ou medicina do Médico total encontramo-la, porventura, realizada por uma equipa muito abrangente de pessoas, na comunidade: médicos, enfermeiros, padres, terapeutas de várias especialidades, pais, mães, irmãos, amigos, pedagogos, catequistas, etc. Aquele Médico precisa das nossas mãos, pés, ouvidos, bocas, olhos… curados para lhes levar essa cura divina, única capaz de dar plenitude de vida à humanidade.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu