Sim, não, talvez: "interruptores" de uma linguagem mediadora (actualizado)

Vive-se, hoje mais do que ontem, numa sociedade de boas expectativas, através de personalidades com carência de reconhecimento. Por isso, no mundo do trabalho, na vivência de uma vocação ou mesmo no relacionamento interpessoal, quando a pessoa é chamada a dar tudo o que é e tem, porque assim a sociedade ou uma instituição o exige, mais ela sente necessidade de ser reconhecida quer pessoalmente, na sua globalidade, quer nesta ou naquela particularidade ou circunstância. Habitualmente, não é a globalidade da pessoa a exigir, mas esta ou aquela qualidade ou circunstância que servem de mediação para o diálogo de reconhecimento.
A expectativa e o reconhecimento, como pólos de relacionamento humano e profissional/vocacional, implicam que o olhar humano mire a totalidade a pessoa, para não correr o risco de, por causa de um valor menor do que a própria pessoa, reduzi-la a esse mesmo valor. Neste sentido, nem sempre a linguagem mediadora tem sido bem utilizada em favor do valor da pessoa e do ideal que lhe está inerente através do chamamento.
O “sim” e “não” costumam ser os “interruptores” da linguagem mediadora entre expectativa e reconhecimento, na relação humana e institucional, mas nem sempre são unívocos ou portadores de transparência. Porque será?
Introduz-se aqui a diferença que existe entre “ideal pessoal” e “ideal institucional”, ambos implicados na vocação. À partida, estes dois tipos de ideal não se identificam imediatamente, precisando de uma linguagem de mediação. Às vezes o “sim” quer dizer “por causa de Vossa expectativa digo que sim, mas o meu coração que gostaria de se ver reconhecido por causa de… diz que não”; outras vezes o “não” quer dizer “digo-lhe que não por isto ou por aquilo…, mas o meu coração gostaria de dizer sim para se sentir reconhecido”. Na linguagem mediadora nem sempre os interruptores do “sim” e do “não” são bem utilizados, derivando dessa má utilização quer a falta de transparência que enriqueça a afectividade, quer a falta de coerência da qual depende a eficiência.
O diálogo institucional que medeia o confronto entre os ideais pessoais e os ideais institucional não deveria utilizar somente esses “interruptores”, ainda que os ponha à frente, com transparência de expectativas e vontades de reconhecimento, como ponto de partida. O diálogo institucional,  para não ser desumanamente instrumentalizador, poderá metodologicamente ser mediado por uma zona intermédia ao “sim” e ao “não”, de forma a criar os pressupostos necessários a que os mesmos sejam efectivos e transparentes, como Jesus assim os apresentou: «Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal» (Mt 5,37). A repetição das duas palavras por parte de Jesus (“Sim, sim; não, não”) sugere a coerência entre as palavras e as obras, o que se diz e o que se faz, em benefício da perene verdade. Por outro lado, e para não se dar espaço a que se use a Palavra a nosso bel prazer, mas tendo em conta que ela contém toda a verdade, a mesma também sugere a recomendação do Senhor: «Quem dentre vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que a concluir? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, não a podendo acabar, todos os que virem comecem a troçar dele» (Lc 14,28-29).
Desta forma, não acontecerão dissabores que são causadores quer de más (falsas) expectativas, quer de falta de reconhecimento do valor das pessoas. A história dos dois filhos que o pai convida a trabalhar na sua vinha (cf. Mt 21,28-32), porque parte de uma constatação da realidade, poderá ser uma proposta de reflexão mediadora da sã transparência e do assertivo reconhecimento. Enfim, um “não” reflectido poderá ser mais benéfico do que um “sim” irreflectido, embora respeitoso.