Publicado em Integração Psico-Espiritual

O combate interior

No último post propunha uma reflexão sobre o crescimento humano, que implicava largar a “pele” da infância, transitando-se desta estação para a da “contracção”, em que o sujeito está mais voltado para o seu interior. Esta dinâmica do crescimento humano, natural, é acompanhada também pelas exigências espirituais. A dimensão de crescimento humano integra-se no crescimento espiritual/moral e este assume aquele. Ora vejamos:
No Evangelho de hoje (Mt 23,23-26), onde vemos Jesus a debater-se com a hipocrisia dos escribas e fariseus, aprendemos que o crescimento espiritual consiste sobretudo num combate interior contra toda a espécie de malícia. Segundo Jesus Cristo, não é o que entra no homem que o torna impuro, mas o que sai dele; do coração procedem as más intenções… (cf. Mt 15,11.19). Esta verdade cristã ensina-nos que os piores inimigos a combater são os que estão no nosso interior. Este é um desafio dramático que acompanha aquela mudança de estação para a fase adulta, em que a pessoa é chamada a assumir as suas escolhas: como interpretar as emoções, que rumo de acção dar aos seus sentimentos. Podemos dizer que a primeira estação da vida (a da expansão) é pré-moral, onde não predomina a consciência do mal, e a segunda estação (a da contracção) já pode ser examinada moralmente, pois supõe-se que a pessoa é capaz, com as suas faculdades, de discernir entre o bem e o mal, e tomar decisões na base dessa consciência.
Segundo Orígenes, as batalhas que é preciso escolher estão dentro do homem: «limita a procura a ti mesmo. Em ti está o combate a que deves entregar-te; dentro de ti está o edifício da malícia que é preciso destruir; o teu inimigo vem do fundo do teu coração» (Homilias sobre Josué). Assim, na pedagogia da infância não se ponha tanto o acento na obrigação moral das crianças quanto no cuidado a que elas experimentem o bem, contemplem o bem, saibam apreciar as coisas boas… Na juventude travarão menos batalhas…, porque o seu interior não será povoado de “bombas relógio”. Agora ganha mais sentido a expressão do post anterior: “os traumas da fase adulta serão bem mais marcantes e graves”. Se o é na dimensão humana e pré-moral, também o serão na dimensão do pecado, porque as escolhas da pessoa adulta, a não ser que esta tenha alguma deficiência do foro da consciência, são esclarecidas e livres.
Continua Orígenes: «Conheces o poder deste exército inimigo que avança contra ti do fundo do teu coração? Ei-los, os  inimigos a massacrar no primeiro combate, a arrasar na primeira linha. Se formos capazes de derrubar as suas muralhas e destruí-los até que não reste nenhum para o contar, nenhum com vida (Jos 11, 14), nem um só que possa recuperar o fôlego e reaparecer nos nossos pensamentos, então Jesus dar-nos-á o grande descanso». Se nos ocuparmos a travar este combate interior, o combate da fé de que S. Paulo também foi protagonista (cf. 2Tm 4,7), então já não nos farão mossa os inimigos do exterior aos quais não gastaremos energias de resistência. Resistência e expulsão devemos oferecer aos inimigos do interior. Dessa forma “obteremos descanso” e também o exterior estará em paz.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu