Publicado em Integração Psico-Espiritual

Largar a "pele" da infância

Este título é uma outra forma de dizer “crescimento”. Ainda veste a “pele” da infância? Para saber se sim ou se não, pare para responder às seguintes perguntas: quando é que o tempo pára para si? Quando é que se sente realmente em casa, ou seja, totalmente confortável? As respostas a este tipo de perguntas são muito úteis para saber como é que está a acontecer, se já aconteceu ou não a transição da primeira estação para a segunda estação da vida. Como o Dr. Martin Seligman, também acredito que só existem duas grandes estações da vida: a estação da expansão e a estação da contracção. A primeira desenvolve-se desde o nascimento até se descobrirem as exigências do mundo tal qual é encontrado pela pessoa (escolaridade, vocação, valores, trabalho, domínio pessoal…) e preparar-se para essas mesmas exigências. É a “estação extrínseca, em que se aprende o que é esperado de si e de fazer o que é imposto pelo exterior. A segunda estação é definida não tanto pelo mundo exterior, mas pelas realidades que se têm vindo a consolidar dentro de si. Trata-se de se centrar à volta do que aprendeu na primeira estação da vida, preocupando-se com o que considera, pela experiência, realmente importante.

A finalidade deste post não é tanto desenvolver nenhum estudo sobre as etapas da vida, mas a de reflectir o que significa realmente o crescimento. Há quem defenda que crescer significa recuperar a infância “perdida” ou não vivida ou vivida dramaticamente, voltando ao passado, vitimizando-se em relação a possíveis pessoas ou acontecimentos opressores, descarregando a raiva em alguém ou algo e consolando-se (estas são as bases do famoso “movimento de recuperação”). Este movimento garante momentos efémeros de consolo, mas parece que não ajuda a crescer verdadeiramente.

Outra postura poderá ser a mais saudável e protagonizadora de um crescimento autêntico: revisitar o passado poderá ser útil, mas não para ficar prisioneiro dele. Poderá servir para nele encontrar comportamentos que, relacionados com os comportamentos actuais, ajudem a descobrir o “padrão de comportamento” que bloqueia a transição para uma vida mais feliz e responsável. Com isto, parece que os acontecimentos da infância não influenciam tanto como dizem a personalidade adulta, tanto quanto a sabedoria para escolher e a vontade para mudar os comportamentos. Será o “movimento” de profundidade e de liberdade. Como adultos, somos de facto livres para mudar. Se houve traumas na infância, há que considerar a conclusão de muitos estudos desenvolvidos de forma diferencial (crianças e adultos): os traumas da vida adulta são bem mais marcantes e graves. Provam-no a capacidade que as crianças têm de crescer diante de um mau trato, um divórcio dos pais, de uma doença, etc. Portanto, aprofunde o conhecimento de si próprio(a) e decida, tanto quanto pode, que rumo dar ao fruto das suas circunstâncias, que passo dar ao ponto de partida que não escolheu. Os sinais reveladores da graça de Deus costumam ser uma boa “bússola”!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu