Publicado em Integração Psico-Espiritual

«Mudar de figura!» – Um desafio para a Consciência

Ainda há pouco celebrámos a Festa da Transfiguração do Senhor. Por esta ocasião, lembrei-me de um facto que estava presente na minha consciência autobiográfica: na homilia de um dos Domingos em que escutávamos o Evangelho da Transfiguração, perguntei às crianças que estavam diante de mim o que achavam que era isso de “transfiguração”. À partida, de uma pergunta assim, não deveria esperar respostas muito profundas, mas, qual foi o meu espanto, quando uma criança levanta o braço prontamente e responde: «Transfiguração é mudar de figura!» Veio-me logo à consciência nuclear a aclamação do Senhor que dizia «Bendito sejais ó Pai… porque revelastes estas verdades aos pequeninos».

Integrando a mensagem da Festa da Transfiguração do Senhor – em que Ele antecipa a visão da sua glória aos apóstolos escandalizados com a cruz – numa visão antropológica cristã do desenvolvimento humano, poderemos aproveitar-nos dos argumentos científicos de António Damásio acerca da Consciência ou do “Si” (self, em Inglês). Para este conceituado neurologista português, existem vários níveis de consciência: a consciência nuclear (core self), a consciência alargada (extended self), a consciência autobiográfica (“si” autobiográfico, memória autobiográfica) e o proto-si. Sem poder desenvolver neste simples post todos estes aspectos ou níveis da consciência, gostaria somente de desenvolver a seguinte reflexão de integração:

Por consciência nuclear entende-se a que experimentamos no aqui-e-agora do nosso quotidiano. Este nível da consciência é a “porta” que, terapeuticamente, nos ajuda a aceder à consciência alargada. Esta é a percepção que o nosso “eu” consciente tem de que transportamos a memória de uma passado e somos capazes de antecipar ou “adivinhar” um futuro que se vai avizinhando, não só consequência de um presente, mas que, pela fé, nos é prometido. É das características mais extraordinárias da pessoa humana o fazermos as experiência do aqui-e-agora tendo, ao mesmo tempo, presente a nossa consciência mais abrangente ou extendida (ao passado e ao presente) que influencia positivamente (e às vezes até negativamente) nas circunstâncias do presente. Em termos mais simples, entre os dois níveis de consciência – a nuclear (do aqui-e-agora) e a consciência alargada (do passado e do futuro) – existe um intercâmbio a acontecer e a desenvolver sempre, a não ser que alguma patologia neurobiológica o impeça, que equivalerá a dizer um intercâmbio entre a criança que está dentro de cada um de nós, com a sua inocência e os seus sonhos ou ideais, e o “eu” que no aqui-e-agora é chamado a fazer aquele trabalho de intercâmbio entre os vários níveis de consciência que lhe permitirá participar naquela Transfiguração.

No momento da sua Transfiguração, o Senhor também fez os apóstolos contemplar o Antigo Testamento (a Lei e os Profetas em Moisés e Elias), ao mesmo tempo em que, na nubolosidade em que se faz ouvir a voz do Pai, lhes permite antever a promessa da glória da sua Ressurreição A pedagogia divina manifestada neste evento terá certamente que ver, sob desígnio amoroso do Criador, com aqueles atributos da nossa consciência humana, instrumentos que nos poderão ajudar a “mudar” constantemente “de figura”, até alcançarmos definitivamente aquela imagem que Deus idealizou para cada um de nós, na Sua glória, também a nós prometida.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu