Unidade de vida = exterior >< interior

«Se isto é o que está a acontecer por fora, o que estará a acontecer por dentro?» – é a “moral” apresentada no final deste pequeno e interessante vídeo que está disponível online e já povoou inúmeras caixas de correio electrónico. Interessante e necessário é compreendermos essa moral, quer na busca da unidade pessoal de vida, quer na missão de educar os mais novos, com particular atenção para a infância. Interessante foi também o debate público sobre o tema que se pode revisitar em www.debatepublico.com. A maioria dos depoimentos-reacção ao tema deste debate sublinham o trauma como a base do problema, colocando a sua origem na infância.

O desenvolvimento da pessoa humana, que hoje a psicologia descreve minuciosamente desde o seu nascimento, acontece por etapas mediadas por conflitos causados pela relação humana com o ambiente e as pessoas que a circundam, cuja superação oferece a capacidade para avançar para a etapa seguinte. A não superação desses conflitos bloqueia o crescimento nalgum aspecto daquela etapa, com consequências mais ou menos graves para a identidade de uma personalidade realizada e feliz. Se o desenvolvimento humano já é naturalmente mediado por conflitos, o que dizer de um crescimento mediado por contra-valores, violência, mentira, exploração… (e segue a lista interminável que o/a caro/a leitor/a será capaz de desenvolver), que assomados ou confundidos àqueles conflitos naturais darão ao desenvolvimento humano inevitavelmente uma “face” de luta, quer esta se viva mais no interior ou se manifeste com contornos exteriores. A ausência desta luta poderá desviar o desenvolvimento da pessoa consciente da sua trajectória “normal”.

Desviando a atenção ao argumento do frequentemente mencionado “destino”, uma opção por uma crescente e bem fundamentada vida espiritual, unida a um acompanhamento iluminado pelas ciências humanas, poderá ajudar, dependendo das capacidades da pessoa e do aproveitamento das oporunidades-mediações-pessoas a superar aqueles conflitos que se assomam àqueles que já são do desenvolvimento natural, o que exige uma boa dose de aceitação dos limites e de humildade (não humilhação) em procurar a veradeira identidade. No entanto, nem sempre o ambiente circundante favorece a luta interior e exterior no bom sentido. Os sucessos imediatos falam mais alto e são ilusoriamente mais compensadores. O uso de máscaras e o constante recurso a mecanismos de defesa no âmbito da relação social são já sinal da distância entre o interior e o exterior, elementos inseparáveis no que respeita à unidade de vida.

Assim, a unidade de vida que uma personalidade em crescente maturação consiste num diálogo nem sempre isento de conflitos entre o exterior e o interior do ser humano. Mais naturalmente, podemos encarar este diálogo de forma positiva, tendo a coragem de relacionar sempre os sucessos do exterior e o sentir-se interiormente realizados. Como sabemos desta história particular, que não é facto isolado, nem sempre existe esta correspondência. Por isso, a responsabilidade pessoal em construir a felicidade e em educarmos para ela os outros, inclui inpreterivelmente a atenção ao interior quando nele se reflectem as imagens do exterior e a transparência (nem que seja para a consiência nuclear pessoal) de um exterior que faz um esforço por integrar a memória do interior. É também neste concreto do desenvolvimento da vida humana nem sempre linear, como o tenta descrever a psicologia, que se desenha a história da salvação de Deus para cada homem e mulher, desde a infância até que, no reencontro escatológico com Deus, cada um finalmente reveja a sua originalidade na Face do Criador.