Publicado em Integração Psico-Espiritual

Gripe A, a Comunhão e a Missão

Temos vindo, nestas últimas semanas a ser confrontados com uma nova doença para a qual se prevêem contornos mais ou menos graves, conforme o tipo de pessoas que são atingidas por ela, formando os chamados “grupos de risco” (crianças, grávidas, idosos, etc.). Assim, a já famosa “Gripe A” ou “H1N1” está a unir as grandes instituições, incluindo a Igreja, numa prevenção que desoriente os riscos anunciados.

É nesta prevenção que quero aqui participar, através desta “catequese” psico-espiritual, não que vá propor uma cura psico-espiritual para o problema da gripe, mas que há aspectos da vida cristã, como a comunhão e a missão, que merecem um apelo para a colaboração na prevenção.

No contexto do envio dos Setenta e Dois (Lc 10) que o Senhor garantiu aos seus discípulos que nada lhes poderia causar dano Lc 10, 19: «Olhai que vos dou poder para pisar aos pés serpentes e escorpiões e domínio sobre todo o poderio do inimigo; nada vos poderá causar dano». Como lemos, o poder que Ele lhes dá tem uma dimensão pro-activa: “poder para pisar”. Sugere-se aqui que no impulso que nos leva a participar na Comunhão (seja em sentido global, na vida cristã em participação na Vida da Santíssima Trindade, como concreto, em participação na Pessoa e Missão de Jesus Cristo na Missa) seja acolhido como apelo a colaborar activamente a “pisar serpentes e escorpiões” que danifiquem a comunhão.

Em Mc 16,18, vemos Jesus a garantir aos discípulos que «apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal». Paulo, quando adverte a comunidade para os perigos da idolatria (1Cor 10), adverte a que «nem tentemos o Senhor, como alguns deles tentaram e pereceram, mordidos pelas serpentes» (v. 9). Uma leitura paralela destes textos, sugere-me que, no contexto das doenças que a sociedade se vê obrigada a prevenir-nos dos riscos graves, a Igreja não só reflicta, mas convide os fiéis a actuar no que diz respeito à vivência de alguns momentos concretos da comunhão, sobretudo aqueles em que se podem correr riscos do contágio: a comunhão na Missa.

Defender a todo o custo esta ou aquela forma de comungar, trascurando assim a liberdade que os fiéis têm de escolher, como na confissão, do modo de realizar um rito, é já, por si, uma atitude idolátrica. E tenta o Senhor, pois nessa atitude, aludindo a que o Senhor nos garantiu que nos livraria de todo o mal…, damos a impressão que somos nós a querer que o Senhor nos salve, ou, no limite, a convocá-Lo para isso no momento do perigo.

Fica a exortação neste tempo em que é preciso de colaborar na prevenção sanitária, com todos os meios e em todas as circunstâncias: na comunhão sejamos pró-activos em fazer tudo o que concorre para a saúde, fazendo das mãos um “trono” para receber o Rei (S. Cirilo de Jerusalém, séc IV). Não tenho, aqui, problemas em partilhar que sempre que distribuo a comunhão na Missa e tenho de levar a Hóstia Consagrada à boca de uma pessoa, tenho a consciência intranquila de que estou a partilhar a saliva da pessoa ou pessoas precedentes. Não nego a liberdade que leva as pessoas àquele modo de comungar, até porque o fazem por tradição. Mas sinto que estamos a tentar o Senhor (cf. 1Cor 10,9), pois não fazemos tudo para que se “pisem as serpentes e escorpiões” (cf. Lc 10,19) que danificam a comunhão entre os fiéis, factível através da defesa do bem-estar da saúde física, psíquica e espiritual. Se na comunhão devemos ser pró-activos, na missão, que já assume essa pro-actividade, não devemos ter medo (ou seja, não devemos ser re-activos), facando parados, de forma que aconteça que o mal nos venha “morder”. Não estar parados numa forma cristalizada de fazer é a forma de não ficar doentes, não querendo com esta afirmação desprestigiar aquela quietude ou abandono que é própria dos cristãos no meio dos perigos do mundo.

Não faltam, nos livros espiritualidade e na Internet, citações que revelam a tendência da defesa da comunhão na língua, com a consequente necessidade de artefacos como a petena, com a defesa, talvez presunçosa, da dignidade de uma relação com o Sacramento. Respeitamos os contextos em que essa tendência nasceu, mas com a crítica constructiva de que revelam uma certa militância pastoralmente infecunda. Ignorando as passagens da história da celebração dos sacramentos, também se torna mais longínqua a forma celebrativa original de Jesus com os seus discípulos no cenáculo. Para além do aspecto sanitário, fica a pergunta:

O que poderá fazer com que a comunhão leve a uma participação mais eficiente na missão? Uma comunhão na língua, de braços inertes, ou a comunhão nas mãos, de braços estendidos para o Senhor e os irmãos? Talvez uma resposta a partir de uma “consciência alargada” e não só “consciência momentânea” ajude a combater uma evidente “gripe” psico-espiritual, doença provocada por um “vírus” que ignora a dimensão física da fé.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu