O sentimento de si

Hoje, quero falar sobre os diversos modos através dos quis nos “sentimos a nós próprios”. O “sentimento de si” é uma importante realidade subjectiva, um fenómeno evidente e atendível que a ciência e o acompanhamento humano não podem ignorar. O modo no qual nos experimentamos a nós próprios na relação com os outros fornece a estrutura mediante a qual organizamos todos os encontros interpessoais.

Na sua psicologia do desenvolvimento, Daniel Stern sustém que no decurso do nosso desenvolvimento nós coleccionamos diversas experiências de nós próprios, diversos modos de “sentirmo-nos”, de nos sentirmos no mundo. Todos estes diversos sentimentos de si, que se sucedem um após outro com o suceder do tempo, não estão “avizinhados”, mas permanecem como níveis coexistentes de experiência. O interessante é que cada sentimento ou impressão de si “acorda” um correspondente “campo de relação”, ou seja, dependendo do modo como me sinto, terei um modo de relacionar-me com os outros e vice-versa: um certo modo de relacionar-me far-me-á sentir de um certo modo e não num outro; se, por vezes, um determinado campo de relação não me é garantido, dificilmente poderei perceber a sensação de mim mesmo relacionado com esse campo.

Concretizando estas ideias que parecem confusas, através de um cenário que porventura é comum a todos: já cada um viveu a experiência de ir a uma festa de casamento ou relacionada com o emprego do marido ou da mulher. Vestindo gravata ou o melhor vestido de noite ao quel não estamos habituados, diante de pessoas porventura desconhecidas, demo-nos conta de que não estávamos no ambiente nosso preferido, aquele ambiente favorável a que sejamos nós próprios, espontâneos. É, pois, nesses momentos que vêm ao de cima outras formas de nos sentirmos nós próprios que num ambiente habitual estão “caladas”.

Então daqui podemos concluir que somos um conjunto de modos coexistentes de nos sentirmos a nós próprios, dependendo dos ambientes que frequentamos e da “roupa” que vestimos (não estamos aqui a falar de patologias, nem de duplas personalidades; todos os homens e mulheres passam por isso e sempre de forma original).

Quantos são as formas de nos sentirmos a nós próprios? Stern elenca quatro tipologias: um “Si” emergente, um “Si” nuclear, um “Si” subjectivo e um “Si” verbal. Estas tipologias descrevem o desenvolvimento das formas de nos sentirmos a nós próprios desde a nossa concepção, desde o insconciente, até à nossa capacidade de verbalizar os sentimentos.

O desafio do desenvolvimento humano, sobretudo sob o auxílio de uma aliança com Deus, é o que reconhecermos que, por vezes, se manifestam em nós próprios sentimentos contraditórios que é necessário assumir e manter (guardar) em conjunto, na história pessoal, até à nossa salvação.

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