O "fair-play" da fé

Existem três critérios que servem quer aos educandos queraos seus educadores reconhecer em que medida aqueles se encontram efectivamente num processo de mudança que continuará no futuro.O primeiro é tomar decisões livres e responsáveis, o segundo é ser capaz de verbalizar fraquezas e caídas, o terceiro é respeitar os valores proclamados na sua integralidade.

O terceiro critério apresenta-nos uma dicotomia nem sempre visível nos comportamentos das pessoas, mas que à mínima oportunidade de aprofundar uma situação pessoal de fraqueza (percebendo a sua psicodinâmica) se pode perceber que o que estamos a observar é uma fraqueza ou então uma exigência não aceitada. São duas realidades diferentes, pois a primeira frequentemente foge à liberdade do sujeito e a segunda é uma opção, revelando, por isso, uma inconsistência. A fraqueza mostra-nos a não posse de um valor que porventura se quer alcançar, mas que ainda não se possui de todo; a exigência não aceitada ou inconsistência é a recusa desse valor ou, então, a não aceitação e vivência da sua totalidade.

A inconsistência psicológica ou espiritual diz-nos que ao sujeito não interessa o conteúdo objectivo do bem, a sua importância intrínseca, mas sobretudo a sua auto-referência, a sua correspondência aos interesses pessoais do momento, às razões subjectivas. Na inconsistência, não é o valor que ajuda a perceber o bem, mas os interesses pessoais. À pessoa inconsistente, o que falta para ser consistente não é a observância de um preceito, mas a efectiva capacidade de ser fiel e responsável em relação à lógica do valor. à maneira de Jesus: «Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito.» (Lc 16,10).

Na perspectiva cristã, cada fraqueza, mesmo quando grande, é objecto da redenção; uma inconsistência, ainda se pequena, porque tolera a infracção dos valores.Como traduzir, então, este critério último de aceitar viver, ainda se numa certa gradualidade, os valores na sua integralidade? Aceitemos o conselho de S. Paulo: «Aquele que participa numa competição não recebe o prémio, se não competir segundo as regras.» (2Tm 2,5) Aqui sublinha-se não a necessidade de vencer a todo o custo, mas a de combater segundo as regras. Acolher um valor na sua integralidade, no fundo, significa conceber a vida e as próprias escolhas concretas nestes termos de um “fair-play”. Na vivência dos valores não vale a lógica do utilitarismo, nem do sucesso a todo o custo, mas mais a da honestidade, da responsabilidade, da voluntária obediência às regras. Porque, enfim, na fraqueza está algo que nos atira para o amor, a misericórida; no caso das exigências não aceitadas, somos atirados para trás: para o contentamento de nós próprios.

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