Publicado em Integração Psico-Espiritual

Trabalho simbólico

Na origem, o símbolo era um sinal de reconhecimento. Tratava-se de um objecto dividido ao meio do qual dois amigos guardavam, cada um, a sua metade para deixar em herança, de forma que ao recolher as duas partes os próprios descendentes pudessem verificar a amizade dos seus antepassados. Aquela foi uma divisão em função da aliança, uma laceração em função de uma unidade, um trabalho gerador de vida, porque destinado a um “mais” de significado. Lembremo-nos que a primeira acção criadora de Deus foi separadora (cf. Génesis cap. 1), separação que terá como consequência a diferenciação e a unidade, mais expressiva na acção de Jesus.

Ninguém que se deixe inquietar pela maravilha de viver e queira nutrir o sentido da própria existência é poupado ao trabalho simbólico, ou seja, da fadiga interminável, humana e humanizadora, de “juntar as peças” do seu ser e da sua experiência. É uma tarefa feita de muitos aspectos: manter um diálogo entre o mundo dos ideais e o da realidade, dar voz e a possível harmonia a todos os nossos modos de funcionar (mente, coração e vontade), coordenar a memória do passado com a esperança de um futuro, evitar o corte entre a vida pública e a privada, unir fé e vida.

Recolher os fragmentos… para que nada se perca. Parece-me que poderá ter sido este um dos aspectos escondidos da liturgia do Tríduo Pascal: recordar tudo o que estava escrito e refazer a experiência primordial do mistério cristão para que, associado ao presente salvífico que no Ministério de Jesus é totalizante, a vida de cada um cresça, no essencial, em direcção a uma verdade total.

Para o(a) meu(minha) caro(a) leitor(a) os votos de um feliz Tempo Pascal!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu