Corres de alguma coisa ou para alguma coisa?

Se corres de alguma coisa estás sempre a olhar para trás, se corres para alguma coisa, estás sempre a olhar para a frente.

A programação motivacional proposta por algumas correntes modernas de psicoterapia apresentam-nos uma técnica a dois tempos:

1. uma consiste na dissociação de memórias negativas passadas sobre as quais realizamos os nossos filmes internos imagens e sons), muitas vezes, os causadores das emoções negativas que por sua vez nos fazem viver com insatisfação ou prejudicam o nosso desempenho satisfatório e feliz de algumas das nossas actividades; dissociarmo-nos dessas memórias consiste em idealizarmo-nos fora delas, vendo-nos a nós próprios por fora, fazendo diminuir a cena, torná-la pequena, estática e a preto e branco;

2. outra é a associação, que consiste em metermo-nos dentro da cena, imaginando-a agradável, a cores, movimentada, dando-lhe a luminosidade e banda sonora preferidas.

A associação liga-nos a objectivos no presente para o futuro a dissociação liberta-nos do passado, não para o perdermos, mas para recuperar a realidade como ela é, muitas vezes distorcida pelas nossas representações mentais que são por vezes generalizadoras, incompletas, escondendo elementos apagados.

Olhar para trás, permite a dissociação, mas não podemos estar a fazer isso eternamente, com o risco de desperdiçarmos o dom maravilhoso da vida que nos foi dado. Para o vivermos com todo o potencial pessoal, é necessário associarmo-nos a uma percepção mais realista e esperançosa da vida. Para isso, será necessário revermos as nossas condições fisiológicas que habitualmente interferem favorável ou negativamente no nosso estado emocional e também rever as nossas representações internas da realidade.

Deixe de correr de alguma coisa, da qual porventura foge. Passe a correr para alguma coisa. Passará, positivamente, de um estado reactivo da sua história a um estado pró-activo. Aquele usa a fantasia, como forma de compensação (mais filmes de ficção como analgésico contra a pura realidade), o estado pró-activo usa a imaginação, o sonho que, “de olhos abertos”, nos permite rever a realidade como é e como poderá vir a ser com o empenho da motivação e da criatividade pessoal.

Deste modo integrador, perceberemos melhor a expressão pessoal de S. Paulo: «corro, para ver se o alcanço, já que fui alcançado por Cristo Jesus» (Fl 3,12b). Uma vez “alcançados” por Cristo no Baptismo, que direcção tomar? Procurar descobrir cada vez melhor, em Cristo, o horizonte da própria vocação poderá permitir uma integração mais equilibrada e justa das nossas memórias pessoais, passadas e presentes.

Correr… a dois tempos: dissociação e associação? Mas veja bem do que se dissocia e ao que se associa! Leia bem os seus sentimentos, a linguagem das emoções que estão guardadas dentro. Este poderá ser mais um instrumento para quem está habituado ou para quem se quer aventurar no exercício do exame de consciência, instrumento fundamental para se poder viver uma vocação cristã realista e realizadora.

Correr para!…