Mudar de figura

Neste Domingo da Transfiguração, ao integrar as crianças que tinha numa das assembleias no meu discurso homilético, perguntei-lhes se sabiam o que era a Transfiguração. Com esta pergunta insinuei-me como o “padre chato que só faz perguntas difíceis”. Um rapazito levanta o braço para responder àquela “pergunta difícil”. Fico na expectativa alegre, pois gosto das surpresas que vêm das crianças. E posso garantir-vos: nunca me desiludiram!

Fiquei espantado, quando ouvi a resposta à qual o meu discurso preparado certamente não chegaria naquela circunstância: “Sr. Padre, a transfiguração é mudar de figura”. Saiu dos meus lábios uma exclamação paralitúrgica: “Wuauuuuu! Bravo!”

Onde é que eu quero chegar com este facto? Mudar de figura…
Por causa do anúncio da sua morte, Jesus vê os corações dos seus discípulos a ficarem apertados, comprimidos, pela tristeza causada pelas expectativas falsas acerca do messianismo de Jesus. De facto, para ser fiel à sua missão, Ele tinha de ser entregue, morrer e, depois, ressuscitar. é esta a porta única e definitiva para a glória: a morte, o sofrimento inevitável integrado no caminho que tem uma meta de felicidade plena prometida. Este acontecimento definitivo encontra-se anunciado num outro acontecimento longínquo, relatado no Antigo Testamento: o Sacrifício de Isaac (Génesis). Abraão é posto à prova: Deus pede-lhe o seu único filho e logo este através do qual ele veria garantido o cumprimenhto da promessa de uma numerosa descendência. Porquê?!… Deus promete e renuncia à promessa? Poderia ser, é Soberano, pode dar e tirar…

Tiremos fruto destas duas lições da história bíblica (a Transfiguração e o Sacrifício de Isaac):
Quando Deus, nas circunstâncias da nossa história pessoal nos prova a nossa fé e até que ponto é que o adoramos (acima de todas as coisas e pessoas), até que ponto é que Lhe somos fiéis, Ele vai até onde sabe que o nosso coração pode ir. Lembremo-nos de que Ele não deixou que Abraão matasse o seu filho… No entanto, provou com o Seu próprio Filho o seu amor por nós. O que Deus quer é que aquele “pai de uma numerosa descendência” tenha um coração o mais dilatado possível… Foi como Jesus fez com os seus discípulos, sobretudo aqueles a quem ele queria entregar a missão mais importante…

Esta pedagogia de Deus manifestada nestes dois acontecimentos, prova-nos também que o coração do homem é moldável. De facto, os psicólogos, modernamente, falam da “plasticidade” da pessoa humana. Ela é capaz de aproveitar as circunstâncias para crescer, para “mudar de figura”… No entanto, quem conhecerá melhor o limite dessa plasticidade? Nós? Hummm… Deus, certamente melhor do que nós! Por isso é que Ele sabe propôr desafios à nossa fé e ao mesmo tempo, dar largas ao “elástico”, para que o nosso coração esteja sereno e livre, neste caminho…

Por tudo isto, os acontecimentos dramáticos não nos devem escandalizar, porque poderão ser um trampolim para podermos “mudar de figura”. Esta figura nova já está implícita em cada um de nós. é a parte saudável que se esconde na profundidade de cadda ser. Por isso, na perspectiva cristã de quem prepara e vive a Páscoa, não haverá tristeza que não se transforme em alegria, não há depressão que não resulte em frescura de espírito, não haverá sofrimento que não desabroche numa personalidade mais consciente, experiente e madura. Porque o nosso coração é moldável… até certo ponto. Pelo menos do mistério de cada um até ao mistério de Deus.

Se quiser, nesta quaresma, mudar de figura, tenha em conta que «a mudança está na capacidade de expressar-se e envolver-se numa experiência que não se conhece – mesmo se no passado já foi negativa – sem medo de sofrer ou de ficar sem segurança» (Karina Milheiros, coach, em Visão nº 835, p. 83). Esta é uma afirmação dqas ciências humanas a confirmar a Sabedoria divina proclamada pelo Evangelho.

A resposta daquela criança mudou de figura a minha homilia!