Publicado em Integração Psico-Espiritual

A motivação do deserto

Entrámos no tempo novo da Quaresma e Páscoa. Apetece-me chamar a este tempo somente de Páscoa, já que a Quaresma é a sua porta e “Páscoa” é travessia. Na verdade, fomos habituados por uma prática da Igreja excessivamente penitencial a viver a Quaresma e a passar pela Páscoa “como o gato sobre as brasas”. Bem, este preliminar para chagar ao título deste post.
NUTTIN (1962) sublinha como o desenvolvimento humano possa acontecer através de uma passagem normal para interesses mais objectivos, mais amplos, de forma que os interesses precedentes percam importância e sejam deixados cair com o processo chamado «eliminação construtiva».

Neste processo, a alteridade, ou seja, a presença do “outro” faz mesmo parte da pessoa (sem a reduzir a esse outro, claro). É essa alteridade que promove o sujeito que sabe abrir-se a ela (ao outro). Não é só um processo de «remoção», mas de «motivação» que muda realmente no sentido de uma transformação na qual muda seja o sujeito e o objecto, assim como o mode de o afrontar.

Os dois aspectos fundamentais da motivação, a serem transformados, são a força e o significado. O significado abre-se a um horizonte mais amplo (para além do natural visível) e a força, como querer (a vontade), transforma-se do imediato, impulsivo, a mediato, reflexivo (o sujeito deixa de agir segundo o inconsciente e passa a agir mais conscientemente).

Não será o deserto um espaço propício a descobrir aquele horizonte mais amplo cujo alcance requer novas forças, nova vontade para correr para Aquele que já nos alcançou através do seu Anúncio, sua Morte e Ressurreição?

Autor:

Padre da Diocese de Viseu