Publicado em Integração Psico-Espiritual

Gerir as tensões 1

A vocação não é a entrada numa second life (segunda vida ou vida alternativa), mas na vida real. Para permanecer nesta, afrontar as tensões espirituais, comunitárias e psíquicas significa colher, aceitar, elaborar.

Ponhamos como exemplo um dos tipos de tensão frequentes na vocação cristã: a confiança-desconfiança em Deus. Esta tensão corresponde ao primeiro conflito apresentado por Erikson a viver e ultrapassar no primeiro ano de vida. No caso da consagração da vida a uma vocação específica (seja ela o matrimónio, a vida religiosa ou o ser padre) é um dos conflitos que configura as tensões da consagração a nível espiritual. Na relação com Deus vivemos tensões: entre confiarmo-nos a Ele na oração e preferir confiar no nosso trabalho; abandonarmo-nos à sua protecção ou fiarmo-nos nos nossos talentos; entre aceitá-Lo como Ele é ou querer que ele seja como gostaríamos que fosse…

Acontece, porventura, em variadíssimos casos de vida, diante das adversidades começar a resfriar a vontade de rezar, ou, então, dar-se conta que, embora a inteligência já chegou a compreender o que Deus quis dizer através desta pessoa ou daquele acontecimento, o coração, no entanto, ainda não se deixou atrair por Deus. É um caso já muito conhecido o dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13ss). «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram!», disse Jesus àqueles dois que caminhavam. Depois do partir do pão, eles terão aclamado: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?». Cá está!

A inteligência parece andar à frente, mas muitas vezes sem o conteúdo do coração; este arde, mas frequentemente sem a confirmação da inteligência. É necessário, para se poder gerir esta tensão/conflito entre a mente e o coração transformando-o numa maior confiança em Deus, é necessário exprimir, mais do que comprimir, de forma consciente e diante de Deus, os sentimentos, especialmente a tristeza e a cólera. Não se deve fugir desta manifestação de sentimentos. É necessário atravesar, mais do que fugir, a tristeza e recordar de forma cuidadosa o momento em que diminuiu aquela confiança no persistente amor de Deus.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu