Inquietude

Parafraseando Umberto Eco, «não acredito na felicidade… Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo, preciso sempre de fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora… naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto».
O dicionário define-a bem, a inquietude ou inquietação, como «perturbação causada por incerteza ou apreensão; ansiedade; apoquentação; estado de insatisfação; falta de sossego; excitação, nervosismo» (cf. http://www.infopedia.pt). Pode até ser mesmo uma outra definição para aquela que, do ponto de vista clínico, se chama ansiedade. Inquietude e ansiedade poderão ser as duas faces, uma saudável e outra menos (dependendo da gravidade), de uma realidade que toca a todos os homens e mulheres do nosso tempo. É um tempo marcado por antecedentes hereditários a favor da disforia (contrário de euforia), provenientes de uma época glaciar que fez da nossa geração uma geração propensa para a depressão e o desânimo.
Quem é que disse que a ansiedade é sempre negativa? Será negativa se deixarmos que ela irrompa em sintomas fisiológicos tais que nos danifiquem a saúde. Mas por outro lado, muitas vezes, é por eles que ela serve de despertador para as realidades exteriores ou interiores que nos ameaçam a vida. Tomada a sério, a ansiedade, seja ela grave ou menos, é uma grande aliada: avisa-nos desde o nosso inconsciente que há qualquer coisa que não está bem e é preciso defendermo-nos.
Defendermo-nos de quê e como?
Defendermo-nos da ameaça que está declarada pela singuagem dos sentimentos negativos, provenientes de emoções provocadas por pessoas ou acontecimentos. O “como” leva muita gente ao “prozac” ou aos seus derivantes, como se a ansiedade fosse meramente um problema biológico para o qual valeria somente a solução biológica (segundo nos diz a pesquisa científica, haverá 50% de probabilidade de a propensão para a ansiedade ser de ordem genética ou hereditária, mas é só propensão!). O facto de a ansiedade acontecer depende em maior grau da forma como a pessoa lida com a realidade circundante.
Os medicamentos removem a ansiedade do consciente como o próprio mecanismo inconsciente da “remoção” o faz sem medicamentos. Ao remover o problema, também remove a força para a solução (lembremo-nos que os ansiolíticos têm efeitos secundários, como uma certa sonolência e apatia…). Como, então? Uma boa terapia cognitiva ou comportamental, desenvolvida através de rexalamento e meditação, mais baratos e ao alcance de todos, poderão ajudar a diminuir os pensamentos ansiógenos.
Mecanismos de defesa saudáveis serão o humor e a antecipação. Rir de alguns acontecimentos, saber antecipar, sem exagero, o perigo anunciado por algumas circintâncias, serão, também, formas saudáveis de prever o perigo e de o afrontar com equilíbrio e maturidade.
Como Umberto Eco, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto. Esta atitude ajuda-me a desviar-me dos que não são realmente problemas e a aproveitar a energia interior, uma saudável e outro provocada por “doenças” diversas, para resolver os verdadeiros problemas.
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