Publicado em Integração Psico-Espiritual

Sinto e aceito, mas não consinto. Escolho!

Muitas vezes pode acontecer que os sentimentos se confundam com os desejos e a vontade. Parece-me que este é um dos desafios mais delicados para a pessoa humana e cristã.

Sentir qualquer cosa de bom ou até desagradável é fruto das emoções provocadas pelo interior (memória das recordações, cobretudo dos afectos) ou exterior (interacção com as outras pessoas e as coisas…).

Assim, o sentimento, quer seja bom ou mau, como evento é pré-moral. É frequente em muitas pessoas perturbadas humanamente e na sua vida de fé este fazer coincidir a causa do pecado com um sentimento desagradável, que por sua vez foi provocado por uma recordação ou um acto externo. Actos morais são acções da vontade, posteriores aos sentimentos. Exemplo: provo diante de um acontecimento de injustiça um sentimento desagradável de raiva. Esta não é mal em si. Mal poderá ser a forma com que eu reajo, mais ou menos conscientemente, àquele acontecimento. Mas também posso reagir bem escolhendo o modo proporcional à causa, para que não haja consequências ainda mais danificadoras.

A psicologia ajuda-nos a compreender melhor os mecanismos de defesa com os quais a pessoa humana (e também os animais neste sentido!) se defendem das adversidades interiores e exteriores. A maior parte dos mecanismos são automáticos e na sua base há sempre o mecanismo da “remoção” (fuga, esquecimento de qualquer coisa desagradável: não descansamos enquanto não nos sentirmos bem connosco próprios…).

No entanto, existem mencanismos de defesa mais maduros do que outros. Sem reproduzir aqui a numerosa lista de “defesas” gostaria de partir para a relação/reflexão de alguns, poucos, que se podem pôr a paralelo para uma maior vivência da felicidade, da fé e bem-estar natural a que todos temos direito e dever.

A remoção é automática e muitas vezes inconsciênte (pensemos quantas vezes nos esquecemos do nome de tal pessoa ou de cumprimentar aquele outro, e pensemos na nossa relação emocional antecedente!…). A forma madura de adaptação será, na meditação pessoal, ainda sem o julgamento moral, reflectir porque agi desta ou daquela maneira. Somente poderei conscientemente falar de pecado quando agi de “má vontade”… Uma coisa é remover inconscientemente. Outra coisa será remover conscientemente na mentira!

Outro mecanismo perigoso, mas frequente, é o da racionalização que nos leva a “pintar” a verdade desagradável de forma a apresentá-la agradável para uma melhor sobrevivência na convivência social. Evitar a racionalização e “sofrer” a verdade é o caminho mais seguro, embora mais longo, para relações inter-pessoais maduras e duradouras.

Os mecanismos de defesa para uma adaptação que levam a uma maior maturidade serão, por exemplo, o bom humor 🙂 e a antecipação do perigo. Rir dos nossos próprios defeitos, relativizando-os e antecipar o futuro para o presente (sem perder a espontaneidade!) serão formas de não nos despistarmos na via mais correcta, porventura mais difícil, d crescimento pessoal.

Em suma, os mecanismos “maduros” são aqueles chamados de adaptação à realidade, modos capazes de nos ajudar a integrar a nossa realidade com tudo o que somos e temos. O Espírito ainda paira sobre as águas dos nosso mundo interior, continuando a recriar o homem novo através das forças emotivas do nosso ser. O que nos parece desagradável muitas vezes é somente o coordenar das nossas forças em relação dialéctica com a nossa nem sempre domesticada vontade em aceitar tudo, a partir dea lógica de Cristo que nos quer conduzir ao Pai!

Muitos problemas psicológicos e espirituais seriam resolvidos se depois de analizados os verdadeiros sentimentos e aceites na sua realidade, como acontecimento, passassem pelo crivo da vontade iluminada que escolhe o modo de aproveitar a energia que se esconde por detrás de todas as emoções. Quando por vezes o homem age em direcção contrária querendo esconder, penso também que o Espírito quer “explodir” lá desde o mais íntimo do nosso ser, com as possibilidades novas de vida que estão escondidas por mecanismos incontrolados.

Cabe a cada um de nós, depois de visto o mapa dos nossos sentimentos e emoções, escolher a via que nos é posta diante dos olhos do nossos coração (centro decisional bíblico). As emoções que “falam através dos sentimentos, são o motor do nosso “carro”; a razão, iluminada pela fé, deve estar ao volante!

Autor:

Padre da Diocese de Viseu