Publicado em Integração Psico-Espiritual

Discernimento espiritual: inflacionado?

Hoje é mais que experimentada a urgência do discernimento espiritual (assim como noutras áreas da vida humana). Mas é um termo que já se invoca em tantas realidades/actividades de acompanhamento e vida espiritual.
Do ponto de vista cultural vivemos, hoje, entre formas inadequadas de sentir a vida, os papéis e figuras geradas por uma tradição cultural já ultrapassada, sem, porém, acolhermos a novidade senão em expressões germinais e incertas. Sobrevivemos à ambiguidade da existência. Como diria Nietzsche, o homem desaprendeu a agir para reagir simplesmente às escitações do efémero.
Por outro lado, como sem um itinerário assente na essencial relação com Deus, vivida na simplicidade e na confiança, o homem passa a ser objecto de um nomadismo instintivo, à procura do que brilha mais, mesmo no quadro das experiências tidas como “sagradas”.

Uma nova viragem antropológica em união com a reflexão teológica sugere-nos que o discernimento espiritual sirva a uma contínua conversão-páscoa à volta da dignidade da pessoa humana e da formação da própria consciência. No meio de uma núvem de confusão e de fragmentos de vida, pretende ser a chave de clarificação e de síntese para a unificação da vida interior hoje exigida cada vez mais.
O discernimento espiritual envolve a inteligência (o nosso “motor de pesquisa” interior) e ainda mais o coração (“base de dados” das recordações e dos afectos), e pode ser desenvolvido em três momentos fundamentais:

1. A MEMÓRIA, a recolha dos dados, com a percepção daquilo que existe e com a proposta do problema de forma alternativa (bem ou mal? verdadeiro ou falso?) ou integrativa (onde está o meio justo? como compatibilizar?).

2. Na INTELIGÊNCIA acontece o “processamento de dados”, momento de discernimento propriamente dito, momento da compreensão e avaliação dos dados. Implica ajuizar, separar, dividir, distinguir, ou seja, fazer uma série de operações necessárias sobre o argomento que se quer avaliar.

3. A VONTADE ou LIBERDADE é o momento da escolha com aquelas “cartas na mesa” que faz mudar a vida.

Convém não esquecermos que este desafio para a vida cristã não pressupõe, como num tribunal, uma presunção de culpabilidade, mas, pelo contrário, uma procura positiva e um esforço de integração de todos os aspectos e elementos positivos, como exercício do dom e da virtude que leva a termos na vida o sentido da discrição, da justa medida, equilibrio sentido do limite e do concreto, capacidade de autêntica mediação espiritual muito para além dos mesquinhos compromissos ou tácticas mais ou menos políticas. Quando o discernimento espiritual não acontece, o mais provável é acontecer no dia-a-dia, na relação com os outros, com Deus e connosco próprios o mecanismo da racionalização, defesa que não nos ajuda muito à boa formação da consciência e a ser felizes.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu