Publicado em Integração Psico-Espiritual

A cruz e a liberdade criativa


Ao aprofundar o tema da antropologia bíblica e ao reler o decálogo como caminho para a liberdade, descubro, com Paul Beauchamp que a formulação negativa tem uma função importante nos comandos éticos: impede que a lei seja mercenária. Não se recebe uma recompensa pelo facto de não se ter cometido qualquer erro; depois de tudo, não matar não nem uma prestação nem um mérito. A sublimidade verdadeiramente divina do decálogo é de não dizer em que é que o bem consiste… As proibições deixam vazio e livre o lugar das acções a cumprir-se dentro da aliança e faz compreender somente as que fazem cair na morte.
Assim compreendida a pedagogia de Deus manifestada no decálogo, descobrimos que Israel e nós, hoje, temos diante de nós um espaço criativo one podemos exprimir-nos, sempre tendo como referência a aliança, com o espírito de liberdade daquelas “dez palavras”. Estas são palavras de liberdade e de vida, porque defendem da morte. São “teofania”, manifestação do Senhor Deus, diante do povo que caminha na história.

Falando de liberdade e “espaço criativo” no cumprimento das leis do Senhor, temos no Amor de Jesus Cristo a máxima expressão. Quando nos faltarem ideias, dentro desta fronteira da liberdade que nos confere a vida, então temos na vida de Jesus um tesouro de palavras que podem ser ditas e gestos que podem ser realizados em favor da comunhão que Ele veio instaurar. Curiosamente, a palavra “instaurar”, que significa estabelecer, instituir, fundar, inaugurar, inovar, tam na sua raíz o termo grego stauros = cruz.

Não há liberdade verdadeira que não tenha os seus limites e é neste centro de força na debilidade que a vida ressurge e se consuma para a vida eterna.

Autor:

Padre da Diocese de Viseu