«Primeiro o dever e depois a devoção» ?!

Trago à meditação do meu caro(a) leitor(a) esta frase, muito escutada entre nós para se justificar o dever e a responsabilidade acima de um certo pietismo também frequente e infundado.

É claro que nunca aqui reflicto fora de uma perspectiva cristã da antropologia humana e do crescimento pessoal para a felicidade e o empenho na Igreja e no mundo.

Antes de mais, é importante fazermos a lectio humana e a lectio divina da questão: O “dever” reporta-nos à lei; a “devoção” liga-nos ao amor. São Paulo falava aos Gálatas que a salvação não nos vem pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo (cf. Gl 2,16). Ele catequizava num contexto em que uns certos missionários competiam diante dele aparecendo a defender a Torah (lei judaica) antes que a Jesus Cristo. Este drama de Paulo leva-o a tomar posição pela relação fundamental com Cristo crucificado e ressuscitado. Para ele, o Evangelho é uma relação com um “Tu” em Cristo, passando o próprio Paulo a ser “evangelho”, porque disponibilizando-se para ser “filho no Filho” (Gl 1,16).

Para S. Francisco de Sales “devoção” é amor, espiritualidade, vida segundo o Espírito. A história dos costumes religiosos, assim como uma má interpretação da teologia da relação com Deus relativizou esta palavra. E como a fé não pode sobreviver sem a piedade popular, o que proponho com esta reflexão é que se pense no benefício de estes dois desafios da nossa existência como crentes – o dever e a devoção – se ponham não uma antes ou depois da outra, mas a par na mútua reciprocidade e na mútua consequência.

Há, pois, horas em que o dever se contrapõe à devoção injustamente e vice-versa. A consciência falará mais a cada um de nós do que as leis. Estas devem aparecer sempre como pedagogia ao Amor e não como imposição de fora, sem ter em conta a Lei inscrita pelo Criador em cada um de nós. Esta posição não favorece de forma alguma qualquer tipo de anarquia, já que a Lei suprema do Amor implica uma ordem: a Ordo amoris (s. Agostinho) sem a qual não é possível ser-se feliz.

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