A matrioska e a personalidade

A matrioska é uma boneca de madeira característica do artesanato russo que contém, no seu interior encastradas umas nas outras e de dimensões cada uma mais inferior que as outras, um certo número de bonecas.
A boneca maior simboliza a nossa personalidade presente. As outras bonecas simbolizam os estádios de desenvolvimento precedentes do nosso desenvolvimento e não são de todo diversas umas das outras.
A lei da contiuidade-descontinuidade diz-nos que os estádios mais precoces do nosso desenvolvimento ditam a forma aos estádios sucessivos. Por isso é que a personalidde da criança é fundamental para percebermos a personalidade do adulto. Entra aqui uma discussão: a psicanálise diz que a personalidade se decide nos primeiros cinco anos de vida e que tudo o que vem a seguir não é senão consequência daquilo; outros discordam deste determinismo, reconhecendo que qualquer que tenha sido o desenvolvimento este não pára de se realizar durante a vida e não se limita aos primeiros cinco anos. Concordo mais com esta posição.
No entanto, a matrioska pode-nos ajudar a compreender uma coisa: umas vezes, se ela cai ao chão e se desmancha, separando-se umas das outras as bonecas que estão no seu interior, a pessoa entra em crise e revê-se, sendo forçada a perceber as suas fases anteriores. Isso pode acontecer através da manifestãção de variadíssimos sintomas e nas circunstâncias variadas conforme a personalidade da pessoa, diante das outras pessoas e acontecimentos.
Outro é o caso da pessoa que, para melhorar a sua vida espiritual e a sua personalidade no sentido de interagir com os outros de forma mais justa, programa esta abertura das “bonecas” mais pequenas que estão dentro (o que poderá acontecer melhor diante de um bom interlocutor), conhecendo-as e sabendo lidar com o influxo sobre as suas motivações e atitudes. Assim, controladamente, poderemos, fora do alcance daquele determinismo, usar a força extrardinária que está dentro de nós a favor da nossa missão e felicidade.
A matrioska que uma amiga, um dia, me ofereceu passou a ter mais que um valor estimativo: serve para me sugerir entrar dentro de mim sempre que eu quiser, não somente com a curiosidade de me autoanalizar, mas para redescobrir as forças que me serão úteis na vida e relação com os outros.